
Quando Friends estreou, em 1994, ninguém imaginava que seis jovens dividindo cafés, apartamentos, romances e crises existenciais se transformariam em um fenômeno da cultura pop capaz de atravessar gerações. Mais de três décadas depois, a série continua conquistando novos fãs e servindo de referência para praticamente toda comédia sobre grupos de amigos, incluindo as muito superiores How I Met Your Mother e Modern Family e outras também já clássicas como The Big Bang Theory e New Girl.
É inevitável que duas das novas apostas do Disney+, Inapropriados para o Trabalho e Adults, sejam comparadas aos clássicos. E a verdade é que as duas produções aceitam a comparação sem constrangimento, ainda que escolham caminhos próprios para retratar a juventude e a entrada na vida adulta.
As duas séries partem de uma premissa muito conhecida. Um grupo de amigos enfrenta os desafios da vida cotidiana, dos relacionamentos, do trabalho e das escolhas pessoais enquanto tenta descobrir qual é seu lugar no mundo. Parece familiar porque essa fórmula foi aperfeiçoada por Friends, mas também porque ela continua atual. As amizades seguem sendo uma espécie de família alternativa, especialmente em grandes cidades, e as dúvidas sobre carreira, amor e futuro não ficaram presas aos anos 1990.
Trabalho
Em Inapropriados para o Trabalho, o foco está na vida profissional. Os personagens tentam construir carreiras em uma Nova York acelerada, competitiva e cheia de armadilhas. Se em Friends o trabalho quase sempre aparecia como pano de fundo para as piadas, aqui ele ocupa o centro da narrativa. A geração retratada pela série cresceu ouvindo que precisava estudar, fazer cursos, falar idiomas, criar contatos e estar disponível o tempo todo. O resultado é um grupo de jovens competentes, ambiciosos e permanentemente estressados.
O humor nasce justamente desse conflito. Eles querem ter sucesso, encontrar o amor, manter amizades saudáveis e ainda reservar algum tempo para si mesmos, uma tarefa que parece impossível. A série brinca com as cobranças do mercado de trabalho moderno e com a dificuldade de separar a vida profissional da pessoal, uma realidade bastante distante daquela vivida por Chandler, Monica ou Rachel.
Caos
Já Adults prefere explorar outro aspecto da juventude contemporânea. Seus personagens dividem uma casa e tentam aprender a ser adultos sem qualquer garantia de que sabem o que estão fazendo. Compartilham despesas, inseguranças, refeições, problemas sentimentais e pequenos desastres cotidianos. É uma comédia sobre crescer, ou pelo menos fingir que está crescendo.
Se Inapropriados para o Trabalho fala sobre a pressão do sucesso profissional, Adults trata da sensação de que a vida adulta chegou sem manual de instruções.
Empregos temporários, dificuldades financeiras, relações afetivas complicadas e a constante impressão de que todo mundo parece mais preparado fazem parte do cotidiano desses personagens.
As duas séries têm um ponto em comum importante. Elas olham para uma geração que não acredita ter todas as respostas e que faz do improviso uma forma de sobrevivência.
Em ambas, as semelhanças com Friends são evidentes. Um grupo de amigos, Nova York como cenário, romances cruzados, diálogos rápidos, humor baseado nas relações pessoais e a ideia de que os amigos podem ser a família que escolhemos. Ao mesmo tempo, as diferenças ajudam a explicar por que essas produções conseguem encontrar sua própria identidade.
O universo de Friends era, em muitos aspectos, idealizado. Os apartamentos eram grandes demais para os salários dos personagens, as dificuldades financeiras raramente duravam muito tempo e os problemas pareciam sempre encontrar uma solução divertida em menos de trinta minutos.
As novas séries são mais realistas. Seus protagonistas enfrentam um mercado de trabalho imprevisível, custos de vida elevados, ansiedade, pressão social e a necessidade constante de se reinventar. A leveza continua presente, mas existe um olhar mais atento para as inseguranças de quem está tentando construir uma vida em um mundo bem mais complexo do que aquele dos anos 1990.
Diversidade
Talvez a maior diferença entre essas produções e Friends esteja na forma como elas representam a sociedade contemporânea. Durante muito tempo, a sitcom estrelada por Jennifer Aniston, Courteney Cox, Lisa Kudrow, Matt LeBlanc, Matthew Perry e David Schwimmer foi considerada praticamente perfeita dentro de sua proposta. A química do elenco permanece admirável, os roteiros continuam eficientes e muitas piadas atravessaram o tempo sem perder a graça.
Mas também é verdade que seria difícil imaginar uma série produzida hoje sobre jovens adultos em Nova York com um elenco principal tão homogêneo. A cidade é uma das mais diversas do planeta e a televisão mudou junto com a sociedade. Isso não significa que Friends tenha algum defeito irreparável ou que precise ser julgada pelos padrões atuais. Significa apenas que ela foi criada em outro momento histórico e refletia a indústria televisiva daquela época.
Nos novos shows, os grupos de amigos são mais diversos em origens, culturas, experiências e perspectivas. O mais interessante é que essa representatividade não se transforma em discurso permanente. Os personagens existem antes de tudo como indivíduos, com qualidades, defeitos, sonhos e contradições.
Essa mudança era necessária e faz com que as histórias dialoguem melhor com o público atual. Afinal, as grandes cidades são plurais e suas narrativas também precisam ser.


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