
Há eventos que nascem com uma finalidade declarada e outros que sobrevivem graças à finalidade que ninguém declara. O chamado “Gilmarpalooza” pertence à segunda categoria. No programa oficial, discutem-se os grandes temas nacionais: democracia, segurança jurídica, desenvolvimento econômico, governança institucional. Nos corredores, nos jantares e nas rodas reservadas, discute-se algo muito mais objetivo: acesso.
O encontro tornou-se uma espécie de feira anual das relações de poder. Ali se reúnem magistrados, políticos, empresários, advogados, consultores, lobistas e aspirantes a alguma forma de influência. Todos falam em interesse público; poucos escondem o interesse privado. O Brasil entra como tema. Os participantes entram como protagonistas.
Não se trata de ilegalidade explícita. O fenômeno é mais sofisticado. É a normalização da promiscuidade entre quem decide, quem influencia decisões e quem lucra com elas. A fotografia do evento vale mais que muitos discursos. Estar presente é um sinal de pertencimento. Ser visto é quase tão importante quanto ser ouvido.
A retórica é a da reflexão institucional. A prática é a da construção de redes. Cartões são trocados com mais intensidade do que ideias. A deferência circula em abundância. O elogio torna-se moeda corrente. O puxa-saquismo, por sua vez, assume a forma elegante das homenagens, dos painéis e das gentilezas estratégicas.
Num país em que a proximidade do poder frequentemente vale mais que a qualidade de um projeto, encontros assim funcionam como bolsas de valores da influência. Não se compram ações, mas relacionamentos. Não se negociam empresas, mas portas abertas. Não se anunciam favores, mas cultiva-se o ambiente em que eles poderão florescer.
O mais curioso é que todos parecem convencidos de que estão prestando um serviço à República. Talvez estejam. Mas é uma República peculiar, onde os mesmos personagens se encontram ano após ano para discutir soluções para problemas que, em parte, dependem justamente da excessiva concentração de poder e influência entre eles.
No fim das contas, o Brasil real continua do lado de fora do auditório. Lá dentro, prospera o Brasil das credenciais, dos convites exclusivos e das fotografias que valem mais que qualquer ata. É menos um fórum de ideias do que uma celebração da velha convicção nacional: quem conhece alguém importante sempre chega primeiro. E, quase sempre, chega melhor.


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