Política

Livre, José Dirceu está de volta ao jogo

01/06/2026 Marco Santana
Marcelo Camargo/Agência Brasil

Após se livrar de diversos processos judiciais, o ex-ministro José Dirceu está livre, firme e forte. Em tratamento contra um câncer, ele é pré-candidato a deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e continua fazendo o que nunca parou: articulações políticas e análises da conjuntura nacional. Nesta entrevista exclusiva, ele fala sobre o cenário eleitoral e as mudanças que defende para o país.

Como vai a saúde do senhor?

Está sob controle. Eu descobri um linfoma. Pelo tamanho do duodeno, ele é grande e é bastante agressivo, mas é curável. Já fiz a primeira quimio, não teve tanta sequela. Vou fazer um tratamento de quatro meses e conseguir superar. Agora é reorganizar a vida familiar, profissional, a pré-campanha. O importante é disciplina, coisa que nunca me faltou.

Qual a estratégia da campanha do presidente Lula pra cativar o eleitor moderado, que é quem decide a eleição?

Primeiro, manter o Brasil fora de guerra, em paz, e defender o país, como o presidente defendeu no tarifaço. Segundo, garantir uma eleição democrática, sem fake news, violência e ódio. Fazer um debate político para apresentar ao eleitor soluções para os problemas que o brasileiro e a brasileira enfrentam. O principal é a distribuição de renda, o combate à desigualdade e à fome, que depende de um crescimento maior. Depende de reformas. A mais importante é a tributária, porque vai impulsionar muito o crescimento do país. A reforma da renda, da riqueza e da propriedade. O Brasil tem um sistema tributário apoiada no consumo. Com o juro alto, pesa mais na classe trabalhadora. A renda do trabalho acaba perdendo grande força. Então, precisa baixar o juro e fazer uma reforma de sistema financeiro. Nos últimos anos, algumas reformas que foram feitas, liberalizando a economia, flexibilizando a legislação trabalhista, e criaram uma série de problemas graves, como o trabalho precário, baixos salários, a uberização. Daí a tentativa do governo de enfrentar esse problemão, fazendo grandes investimentos no PAC, na infraestrutura. O Brasil precisa construir portos, aeroportos, ferrovias e hidrovias, isso está acontecendo. E também o Minha Casa Minha Vida. São investimentos que fazem a economia crescer. Nós não temos maioria na Câmara e no Senado, daí a luta para renovar o Congresso Nacional, eleger deputados e deputadas, senadores e senadoras que estejam de acordo com o programa para que o país possa avançar. É preciso fazer reforma política nesse país. Como está, não vai acabar bem.

Eu não sei como é que o cidadão e a cidadã veem tudo isso e consideram que esse cidadão (Flávio Bolsonaro) pode sentar na cadeira. Já pensou ele negociando com o Trump? As riquezas do Brasil, a soberania do Brasil. Ele na Europa, no Mercosul, na União Europeia, na ONU. É isso que é o Brasil? Não acredito! O presidente Lula tem uma vida dedicada ao país. Ele já foi presidente agora, em momentos dificílimos, e se mostrou à altura. Sabe perder. Nós fizemos chapa de 27 governadores, 15 não são do PT. Nós temos apoio da metade do MDB de um terço do PSD e do PT, PCdoB, Rede PSOL, PDT e PSB. Temos uma coalizão forte. Nós temos uma base eleitoral forte, de 35%, 40%. Será uma eleição disputada, nós temos consciência disso. Agora… achar que o Brasil vai entregar seus destinos na mão do Flávio Bolsonaro, eu não acredito!

A reforma no Poder Legislativo passa por, fundamentalmente, o quê?

Primeiro, a fidelidade partidária. Segundo, tem que ter voto em lista. O eleitor tem que saber que está votando num partido, num programa. Quem faz a lista? Os filiados do partido. Não é a direção do partido, é a primária, como tem nos Estados Unidos, na Europa, em vários países do mundo. Tem que ter, principalmente, uma proporcionalidade. Os estados pequenos têm 25% da população mas 50% do Senado. É preciso fazer uma reforma política para não ter mais essas emendas impositivas. Tem 93 inquéritos que, na verdade, são desvio de recurso, R$ 2,6 bilhões para shows. O show custou mais caro do que todo o custeio da saúde e educação do ano inteiro do município.

Outra reforma fundamental é a do Poder Judiciário. O que não pode ficar de fora dela?

A reforma já está na ordem do dia, vários juristas, empresariados e o Congresso já estão discutindo. Mas tem que separar. Há uma discussão sobre o papel do Supremo Tribunal Federal, porque o Supremo Federal julga deputado. Se tiver 50 processos, vai passar dois anos julgando deputado. É uma corte constitucional, não pode ter matérias pré-constitucionais, para isso tem o Superior Tribunal de Justiça. Tem o problema da morosidade. Agora tem a tecnologia, a inteligência artificial. É para começar a ser regulado, inclusive há debates muito sobre isso. Segundo, o custo. É preciso dar acesso àqueles que não têm, fortalecer as defensorias públicas. E é preciso, como já foi feito no passado, reformar o Poder Judiciário. Porque nós fizemos a súmula vinculante de repercussão geral. A justiça de negociação, de conciliação, de arbitragem, precisa ser desenvolvida, e precisa modernizar os códigos, porque a evolução da sociedade é muito grande. Acredito que esse debate tem que ser feito na campanha eleitoral também. Muitos dizem que não.

Um dos temas que certamente vão aparecer nessa campanha é o ajuste fiscal. Sempre se fala em cortar benefícios sociais e investimentos públicos, mas pouco se fala sobre as renúncias fiscais, as subvenções, os financiamentos a juros camaradas. O que o senhor acha que pode ser feito?

Eu acho que precisa radicalizar a questão da renúncia fiscal. Os adversários não querem mexer na concentração de renda. No Brasil, 1% dos brasileiros, que são 2 milhões de pessoas, têm a mesma renda que 150 milhões. É preciso ter mais justiça tributária. Por isso que o presidente Lula fez, e o Congresso aprovou, a isenção até R$ 5 mil, deu luz gratuita aos mais necessitados, fez o Gás do Povo. Aí vem a crítica, que está fazendo bondades eleitorais. Não, é uma resposta ao tarifaço. O problemão do Brasil é a dívida pública, nenhum país do mundo paga mais de 2% de juros. Se nós pagássemos 2%, estaríamos economizando 80%, pagaríamos só R$ 200 bilhões e não R$ 1 trilhão. O Brasil não é um país fraco, é uma potência, tem autonomia energética, tem autonomia de alimento. O que precisa fazer? Mais casas, mais roupa, mais alimento, mais lazer, mais cultura, reindustrializar o país, nós temos tecnologia. E precisa parar com essa história de privatizar. 90% dos brasileiros vivem do salário e têm que comprar tudo com ele. Se não tem educação pública, saúde pública, lazer, cultura, Previdência, como é que vai comprar tudo isso?

Muita gente comenta de que, na prática, a candidatura do PT ao Governo do Estado seria apenas para fortalecer o palanque na disputa presidencial, pois Fernando Haddad não teria grandes chances…

Primeiro, foi em São Paulo que o Lula ganhou a eleição em 2022, ele tirou 4 milhões de votos. Nós podemos tirar uns 6 milhões agora do candidato bolsonarista. Isso é importante, não vou negar. Mas temos condições de disputar, porque o governo Tarcísio tem muito desgaste, muito problema. É só andar pelo estado, tem muita insatisfação. Na segurança pública, não resolveu não. Evidentemente, há um eleitorado conservador que lhe dá uma base poderosa, mas nós somos forte também. Haddad está batendo 37% dos votos, ele vai para o segundo turno. Nós estamos muito otimistas com Haddad, e vamos crescer na Câmara de Deputados em Brasília e na Assembleia Legislativa.

Qual foi a última vez que o senhor se encontrou pessoalmente com o presidente Lula?

Eu falei com o presidente agora, ele me ligou, eu estava no hospital. Estive com ele no ano passado. Eu e o presidente não precisamos conversar, eu brinco que conversamos por telepatia. Eu sempre tenho interlocutores, sempre estou conversando com os principais ministros do governo, os líderes dos partidos, de todos os partidos políticos, com o movimento sindical, a juventude, o empresariado. Tenho conversado muito com o sistema financeiro bancário, com o setor industrial do país. É importante, porque o Brasil precisa encontrar entendimentos. Se agravar muito a situação internacional, precisamos de coesão interna no país, unidade pra defender o Brasil, a democracia e o nosso desenvolvimento, o bem-estar do brasileiro e da brasileira.