
Especialista em geopolítica, Eduardo Gianetti acredita que o planeta enfrenta o fim da hiperglobalização, um processo de trocas entre os países que não se sustenta mais, por conta de fragilidades reveladas com a crise econômica em 2008, a pandemia e as recentes guerras. Porém, ele acredita que o Brasil pode se beneficiar com este cenário, ampliando suas parcerias com Estados Unidos, China e União Europeia. Na quinta-feira (21), ele esteve em Santos para palestrar no Seminário Internacional do Café e deu a seguinte entrevista exclusiva ao Jornal da Orla:
ENTREVISTA A MARCO SANTANA
Por que o senhor fala em hiperglobalização em vez de globalização?
Para diferenciar da primeira onda de globalização, que foi de meados do século XIX a início do século XX. Essa foi uma onda de globalização, que começou na década de 1980, foi muito mais longe do que aquela onda. Por isso, hiperglobalização. E por que ela está acabando? Está acabando pelos seus excessos. Houve uma financiarização excessiva. A Covid mostrou as enormes fragilidades da interdependência. E o governo Trump, com toda a sua capacidade de bagunçar o coreto, mudou a configuração e o regramento da economia mundial.
O Brasil pode tirar vantagem dessa disputa entre Estados Unidos e China?
O Brasil, se souber negociar, não é só Estados Unidos e China, a União Europeia. Nós temos que negociar paralelamente, tirando de cada um desses grupos, dessas três potências do mundo, o que mais pode nos favorecer. Eu colocaria na mesa também a União Europeia.
E como isso interfere na vida do brasileiro comum?
O brasileiro comum quer melhorar de vida. Se a economia crescer, e tem tudo para voltar a crescer forte, vai ter mais emprego, vai ter mais oportunidades, vai ter mais renda para investir em educação, saneamento, em transporte público. Essas coisas são todas interdependentes, interligadas. A vida pode melhorar muito se o Brasil recuperar o dinamismo.
O senhor diria que a supremacia americana acabou ou está com os dias contados?
É uma potência em declínio. Pode até se recuperar, ninguém tem bola de cristal. Mas tudo indica que a potência emergente é a China e os Estados Unidos é, francamente, declinante.
O senhor diria que a dissonância cognitiva é um mal do século, e atinge em especial o Brasil?
Não é um mal do século, porque acompanha a humanidade desde que o homo sapiens apareceu. Mas as novas tecnologias dão a essa dissonância cognitiva uma dimensão que assusta.
E como enfrentá-la?
Com paciência, com pertinência e com debate. Não com cerceamento e com censura.
O senhor costuma dizer que o nem sempre aumento de PIB é uma coisa positiva. Por quê?
Porque o PIB pode aumentar e a vida piorar. Se a gente tiver que comprar garrafinha de oxigênio para respirar, o PIB vai aumentar. A vida melhorou? Não melhorou.
O senhor costuma dizer que é otimista com relação ao futuro recente do Brasil. Por quê?
Porque o Brasil tem tudo o que o mundo precisa e nós também precisamos do mundo. Temos uma cultura fabulosa, que eu acho que temos que aprender a valorizar e a cultivar.
O senhor mencionou que a vira-latice brasileira não é uma coisa ruim. Por quê?
Eu acho ótima a condição vira-lata. É a condição das raças misturadas, a improvisação, o vigor dos afetos. O verdadeiro complexo do vira-lata é achar que há algo errado em ser vira-lata. Não há. Se for para escolher entre o poodle da madame e o doberman da polícia eu fico com vira-lata. É bom ser vira-lata. O erro é achar que é ruim e é feio ser vira-lata. Não há nada de ruim e feio. (3:28) É belo. É vitalizado. É a nossa condição.
O Brasil tem uma polarização muito acentuada hoje. Como a gente sai desta armadilha? Amadurecendo e vendos que a polarização não leva a nada. A única coisa que ela garante é que a gente afunde em todos os níveis.


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