Política

Marina Silva: “Não existe agricultura forte sem clima equilibrado”

23/05/2026 Marco Santana
Fernando Yokota/Jornal da Orla

Senadora, ministra, candidata à Presidência da República, deputada federal e pré-candidata ao Senado, agora por São Paulo. Marina Silva tem uma vida dedicada à defesa do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável, entre muitas outras vocações. Na Baixada para participar de um fórum, ela visitou a redação do Jornal da Orla e concedeu a seguinte entrevista:

A senhora aparece como um dos nomes colocados para a disputa ao Senado por São Paulo. Essa possibilidade já está consolidada?

É importante estarmos representados na chapa majoritária. Já temos Fernando Haddad para o governo e Simone Tebet como pré-candidata ao Senado. Meu nome e o de Márcio França estão sendo discutidos para a outra vaga.

Existe uma crítica de que a senhora não teria uma ligação forte com São Paulo. Como responde?

São Paulo é o estado do acolhimento. É um lugar que recebe pessoas do Brasil inteiro. Minha relação com o estado é muito profunda. Vim para cá pela primeira vez em 1979, depois de ser desenganada pelos médicos no Acre. Consegui tratamento em hospitais paulistas, fui acolhida e tive minha vida salva aqui. Meu marido é santista e parte da minha família vive aqui.

Qual deve ser a prioridade de um senador por São Paulo?

São Paulo precisa de visão estratégica. É um estado com enorme capacidade tecnológica, econômica e humana. Temos condições de liderar um novo ciclo de prosperidade sem deixar ninguém para trás. Isso significa investir em desenvolvimento, inovação, combate às desigualdades e políticas que gerem oportunidades para toda a população.

O agronegócio paulista frequentemente entra em conflito com pautas ambientais. Como equilibrar esses interesses?

Eu digo que não é conciliar, é integrar. Não existe agricultura forte sem clima equilibrado. Seca demais prejudica o agronegócio, chuva em excesso também. A maioria do setor já compreendeu isso. Defendo incentivos para quem produz com responsabilidade ambiental.

Qual a sua avaliação sobre o chamado PL dos Embargos?

É um retrocesso muito grave. O projeto enfraquece a fiscalização ambiental ao dificultar multas feitas com base em imagens de satélite. Hoje a tecnologia permite identificar infrações com precisão.

Quais temas devem dominar a campanha eleitoral?

Segurança pública será central, mas ela não pode ser tratada apenas com repressão policial. É preciso enfrentar as causas da violência. O feminicídio, por exemplo, exige investigação e punição, mas também políticas públicas de acolhimento e mudança cultural. Outro tema inevitável é a mudança climática. O Brasil já vive eventos extremos cada vez mais frequentes, com secas severas e chuvas devastadoras. Também precisamos discutir desigualdade social, combate à fome e qualidade de vida do trabalhador.

Por que parte do eleitorado evangélico se aproxima mais de candidaturas conservadoras?

As pessoas têm direito de votar em quem quiserem. O problema é quando se instrumentaliza a fé para a política ou a política para a fé. O Estado precisa continuar sendo laico para garantir direitos a todos. Sou cristã evangélica e acredito que preconceito, ódio e discriminação não têm base bíblica.

Setores progressistas perderam espaço junto às igrejas?

Talvez durante muito tempo tenha faltado diálogo. Mas as principais políticas sociais nasceram justamente nos governos progressistas. Bolsa Família, ProUni, cotas e programas de combate à fome mudaram a vida de milhões de pessoas. O que a população quer é dignidade, oportunidade e perspectiva de futuro para os filhos.