Economia

Líder global do café, Brasil tem participação “tímida” na receita

21/05/2026 Marcos A. Ferreira
Divulgação/APS

O Porto de Santos é o maior corredor de exportação de café do Brasil, por onde passaram cerca de 78% do produto rumo ao exterior, no ano passado – mais de 31 milhões de sacas embarcadas. Líder global no setor, o país responde por aproximadamente 38% da produção mundial, à frente do Vietnã e da Colômbia.

Em 2025, o Brasil exportou mais de 40 milhões de sacas de café de 60 kg, gerando uma receita de cerca de US$ 15,5 bilhões (mais de R$ 77 bilhões), de acordo com dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil.

Os números são grandiosos e o setor já comemora a chegada de uma nova supersafra. Porém, para Pavel Cardoso, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC), o país precisa explorar mais o papel que exerce no cenário global. “O Brasil produz 40% do café do mundo, mas fica com pouco mais de 3% dessa receita. Precisa investir na promoção, na imagem, e para que os nossos cafés sejam também exportados em forma de produto industrializado. Somente assim a gente vai conseguir participar com receita maior nesse globo e gerar mais riqueza para o país. Nós temos 8,4 milhões de pessoas trabalhando nesse ecossistema”, diz.

Pavel foi um dos vários especialistas que participaram do XXV Seminário Internacional do Café, encerrado nesta quinta-feira (21), em Santos. Promovido pela Associação Comercial de Santos (ACS), o evento reuniu, em três dias, representantes de 24 países, de empresas e produtores de diferentes regiões brasileiras e agentes que atuam diretamente ou indiretamente no setor.

Pavel explicou que a produção total de cafés no mundo é algo em torno de 170 milhões de sacas – este ano, o Brasil vai produzir 77 milhões. “Mas essa participação total é do café verde, e nós participamos com uma composição bastante rica. Mas a receita global total final é de aproximadamente 700 bilhões de dólares e o Brasil fica com uma receita total de 24,7 bilhões, quando a gente soma a participação do consumo interno, que foi de R$ 46 bilhões – dá 9,2 bilhões de dólares; com as exportações de 15,5 bilhões de dólares, se a gente soma, tem os quase 25 bilhões de dólares. Entre 700 bilhões global, a nossa participação é de tímidos 3,45%”.

O representante da ABIC compara a produção dos principais concorrentes do Brasil: enquanto a produção brasileira deve fechar 2026 com 77 milhões de sacas, a Colômbia vai produzir 12 milhões e o Vietnã 28 milhões. “Só que o Vietnã produz robusta, a Colômbia produz arábica. Mas, quando a gente fala de preço na ponta, os suaves colombianos, apenas no verde, têm uma valorização pela Bolsa de Nova York, algo em torno de 25% e 30% acima dos cafés brasileiros. Por que isso? Por causa de uma percepção do mercado americano de que os suaves colombianos têm qualidade melhor. Então, o objetivo é desenvolver o branding, dar valor agregado aos cafés brasileiros, para que o Brasil fique com a parte justa que lhe cabe nessa receita global”, afirmou Pavel.

TURBULÊNCIAS GEOPOLÍTICAS

Os conflitos no Oriente Médio, principalmente o ataque dos Estados Unidos ao Irã, que provocou a disparada do preço do petróleo, o medo da explosão inflacionária, o retorno da guerra comercial… Enfim, as geopolítica mundial gera incertezas e impacto nas exportações, inclusive, do café. Porém, Pablo Spyer, economista, sócio da XP, CEO da Vai Tourinho e apresentador da Jovem Pan, está otimista e confiante na resiliência do Brasil.

“Apesar das turbulências mundiais e internas também, eu estou otimista. O Brasil é um país que conviveu muito tempo com inflação alta. A demanda segue pujante, o desemprego está nos níveis mais baixos da história. É ano de Copa do Mundo, onde as pessoas tendem a gastar mais. Temos a reforma tributária. Eu sei que poderia ser melhor, mas é alguma coisa que está nascendo, nasceu, pelo menos vai trazer boa impressão para os investidores estrangeiros. Existe um fluxo de dinheiro entrando no país. O Brasil é a bola da vez lá fora, está todo mundo investindo aqui”, afirma Pablo Spyer, quarta-feira (20), durante palestra que abriu a programação dos painéis no XXV Seminário Internacional do Café.

Ele deu um panorama das principais questões da geopolítica mundial que estão impactando a economia global, mostrando não apenas aspectos negativos, mas também os positivos, como o aumento de investimentos em Inteligência Artificial. “As projeções de gastos com IA em 2026 são de 571 bilhões de dólares. O Paraguai, com 8 milhões de habitantes, fez parcerias com Taiwan e a Google para um centro de IA. O Brasil exporta tecnologia no agronegócio. Tecnologia significa mais produtividade”, afirmou.