
Há algo de profundamente necessário em Criaturas Extraordinariamente Brilhantes, filme dirigido por Olivia Newman a partir do best-seller de Shelby Van Pelt. Em uma época em que tantas produções parecem disputar quem é mais cínica, violenta ou emocionalmente anestesiada, encontrar um longa que acredita genuinamente na bondade – inclusive a humana – provoca quase um estranhamento.
O filme da Netflix parte de uma premissa delicada — a amizade entre uma viúva solitária e um polvo em um aquário — e poderia facilmente cair no ridículo. Mas acontece justamente o contrário: ele encontra beleza na fragilidade das pessoas e transforma pequenos gestos de cuidado em algo poderoso.
Sally Field interpreta Tova, uma mulher marcada por décadas de luto silencioso após a morte do filho. Trabalhando no turno da noite de um aquário, ela leva uma vida mecânica, preenchida por hábitos, solidão e lembranças que nunca cicatrizaram completamente. É ali que surge Marcellus, um polvo inteligente e observador, dublado por Alfred Molina, que passa a acompanhar emocionalmente a protagonista. Ao redor deles aparece Cameron, vivido por Lewis Pullman, um jovem perdido que busca respostas sobre o próprio passado. O encontro dessas figuras quebradas forma o coração do filme.
A comparação com A Forma da Água surge imediatamente, e não apenas pela presença de uma criatura aquática criando conexão com uma mulher solitária. Os dois filmes compartilham a mesma crença em personagens invisíveis para o mundo. Guillermo del Toro usava a fantasia para falar sobre marginalizados, sobre pessoas que vivem à margem da sociedade e encontram acolhimento umas nas outras. Criaturas Extraordinariamente Brilhantes trabalha numa frequência parecida, embora menos fantástica e mais afetiva. O que Olivia Newman procura é outra coisa: o conforto emocional, a reparação íntima, a sensação de que ainda é possível encontrar calor humano depois da tragédia.
E isso aproxima o filme também de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Não na estética visual exuberante de Jean-Pierre Jeunet, mas na ideia de que pequenas gentilezas podem mudar vidas inteiras. Há algo de Amélie no modo como o filme olha para pessoas feridas, sem ironia. O cinema contemporâneo frequentemente trata personagens bondosos como tolos ou ingênuos. Criaturas Extraordinariamente Brilhantes rejeita isso completamente. Seus personagens sofrem, erram, se fecham para o mundo, mas continuam tentando cuidar uns dos outros. E o filme acredita sinceramente que isso importa.
Talvez seja exatamente essa sinceridade que faça tanta diferença. Há cenas inteiras construídas apenas sobre conversas simples, silêncios e olhares. Tova limpando o vidro do aquário enquanto fala com Marcellus. Cameron tentando encontrar algum pertencimento. Ethan, personagem de Colm Meaney, oferecendo uma presença calma e constante à protagonista. Nada disso é espetacular, mas tudo carrega humanidade. O roteiro entende que o afeto raramente aparece em grandes discursos; ele mora nos detalhes.
TRISTEZA
Sally Field sustenta essa delicadeza com uma atuação extraordinária. Existe uma tristeza acumulada em cada movimento da atriz, mas também uma resistência silenciosa. Ela interpreta Tova sem transformar a personagem em mártir. É alguém cansada da vida, mas que ainda preserva uma centelha de curiosidade e empatia. A crítica americana destacou justamente essa força emocional da atriz, apontando o papel como um dos melhores trabalhos de sua fase mais recente.
O filme também acerta ao não transformar Marcellus apenas em alívio cômico ou mascote fofo. O polvo funciona como uma espécie de observador melancólico da condição humana. Inteligente, irônico e sensível, ele percebe dores que os próprios personagens tentam esconder. A narração de Alfred Molina (uma ironia com seu personagem Octopus na saga do Homem-Aranha) dá ao personagem uma mistura de humor e melancolia, que evita o sentimentalismo excessivo. Ainda assim, o longa frequentemente abraça o melodrama sem vergonha alguma — e talvez essa seja uma de suas maiores virtudes.
Existe uma pressão moderna para que toda obra seja “esperta”, sarcástica ou desconstruída. Criaturas Extraordinariamente Brilhantes escolhe o caminho oposto. Ele quer emocionar diretamente. Quer falar sobre luto, envelhecimento, solidão e reconciliação sem se esconder atrás de cinismo. Alguns críticos apontaram que o filme às vezes simplifica demais seus conflitos ou entrega soluções previsíveis. Isso é verdade em parte. Muitas revelações podem ser antecipadas cedo pelo público.
Mas, curiosamente, isso pouco importa. O interesse do filme nunca esteve no mistério em si, e sim na jornada emocional dessas pessoas. O espectador não continua assistindo para descobrir uma surpresa narrativa; continua porque quer permanecer perto daqueles personagens. É o mesmo mecanismo emocional de filmes como Pequena Miss Sunshine, Amélie Poulain ou Até o Último Homem: obras que entendem o impacto quase revolucionário da ternura.
Há também algo muito bonito no modo como o longa retrata a velhice. Tova não é filmada como caricatura frágil nem como exemplo artificial de vitalidade eterna. Ela simplesmente existe, com dores, memória, humor, cansaço e desejo de continuar vivendo. O cinema americano raramente oferece protagonismo tão humano para mulheres idosas, e Sally Field aproveita cada minuto disso.
Visualmente, Olivia Newman aposta numa fotografia aconchegante, cheia de azuis suaves e luzes quentes, transformando o aquário num espaço quase terapêutico. A direção evita excessos fantasiosos e mantém tudo próximo do real, como se o elemento mágico pudesse surgir discretamente dentro do cotidiano. Essa escolha ajuda o filme a funcionar emocionalmente. Marcellus não parece uma criatura fantástica de outro universo; parece apenas mais uma alma solitária tentando criar conexão.
O sucesso emocional do filme também aparece na reação do público. Muitos comentários destacaram justamente o caráter acolhedor da história e o impacto sentimental da relação entre Tova e Marcellus. Houve quem chamasse o longa de “um abraço caloroso” ou descrevesse a experiência como inevitavelmente comovente.
Talvez seja isso que torne Criaturas Extraordinariamente Brilhantes tão especial. O filme entende algo que parte do cinema parece ter esquecido: bondade não é fraqueza dramática. Gentileza não reduz conflitos. Afeto não elimina profundidade. Pelo contrário. São justamente essas qualidades que tornam a perda mais dolorosa e a cura mais significativa. Filmes assim lembram que ainda existe força em histórias sobre pessoas tentando cuidar umas das outras. E isso, no cenário atual, acaba parecendo quase um ato de resistência.


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