Política

Investimento público cresce em ano eleitoral, aponta estudo inédito

29/04/2026 Marco Santana
Divulgação

Um trabalho científico comprova, com dados e fatos, a percepção que já se tinha: em anos eleitorais, os governantes aumentam os investimentos públicos e, com isso, as chances de vitória – deles próprios, no caso de reeleição, ou de seu indicado político.

Em 53 dos 78 períodos analisados (68%), houve aumento de investimentos em infraestrutura no ano eleitoral. E, em 27 destes 53, o governante foi reeleito ou o candidato apoiado por ele saiu vitorioso.

O estudo foi feito pelo jornalista Maurício Juvenal, especialista em parcerias público-privadas e mestrando em Ciência Política e Relações Internacionais. Desenvolvido no âmbito do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) de Brasília, sob orientação do professor doutor Erick Elysio Reis Amorim, o trabalho recebeu 10 – a nota máxima.

A pesquisa examinou três ciclos eleitorais consecutivos de 26 capitais brasileiras, excluindo Brasília, ao longo dos pleitos de 2016, 2020 e 2024.

Utilizando informações oficiais do SICONFI e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o estudo focou nas chamadas despesas liquidadas, que refletem a execução real das obras, e não apenas sua previsão orçamentária. Essa escolha metodológica confere maior robustez aos resultados, ao evidenciar aquilo que efetivamente chegou à população em forma de infraestrutura visível.

Aumento em ano eleitoral
Os dados revelam um padrão consistente: em 68% dos casos analisados houve aumento dos investimentos em infraestrutura no ano eleitoral. Mais do que isso, quando esse aumento ocorreu, o incumbente foi reeleito ou conseguiu eleger seu sucessor em 64% das disputas. “Na prática, isso significa que, a cada dez situações em que houve ampliação de gastos com obras, sete resultaram na manutenção do grupo político no poder, indicando uma forte associação entre investimento público visível e desempenho eleitoral”, explica Juvenal.

Outro dado que chama atenção é o comportamento do orçamento após as eleições. Em 82,7% dos ciclos analisados, houve queda significativa dos investimentos em infraestrutura no ano seguinte ao pleito. Esse movimento reforça a lógica dos chamados ciclos político-orçamentários, nos quais os gestores concentram esforços e recursos no período imediatamente anterior à eleição, reduzindo o ritmo logo após o encerramento da disputa.

Porém, Juvenal alerta que, apesar da correlação identificada, a estratégia não garante vitória em todos os cenários. “Fatores como crise econômica, desgaste político, escândalos ou alta competitividade eleitoral podem neutralizar os efeitos positivos das obras”, destaca. Ainda assim, segundo ele, a persistência desse comportamento indica que os próprios gestores acreditam na eficácia da estratégia, o que acaba retroalimentando o ciclo de decisões orientadas pelo calendário eleitoral.

Estratégias
A pesquisa também dialoga com evidências internacionais sobre ciclos político-orçamentários. Em países desenvolvidos, como Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, estratégias eleitorais tendem a se concentrar mais em políticas fiscais, como redução de impostos ou ampliação de transferências diretas, em razão de regras fiscais mais rígidas e maior fiscalização institucional.

Já em países em desenvolvimento, como Brasil, Índia e México, o padrão predominante envolve o aumento de investimentos em obras públicas visíveis, que funcionam como sinal imediato de ação governamental. “Esse contraste reforça a ideia de que o uso da infraestrutura como ferramenta eleitoral está associado ao grau de maturidade institucional e ao nível de acesso à informação por parte da população”, afirma o especialista.

O trabalho também aponta diferenças regionais relevantes. Nas capitais do Nordeste, por exemplo, o impacto das obras sobre o resultado eleitoral tende a ser mais expressivo, enquanto no Sudeste há maior volatilidade e menor previsibilidade dos resultados. Já nas regiões Norte e Sul, os padrões variam, seja por menor volume de investimento, seja por maior alternância política, o que evidencia que o contexto local desempenha papel decisivo na relação entre gasto público e voto.

Ao final, o estudo conclui que a infraestrutura se consolida como uma ferramenta estratégica de sinalização política no Brasil, especialmente em democracias em desenvolvimento. Contudo, essa prática levanta questionamentos sobre a qualidade do planejamento público, uma vez que decisões orçamentárias passam a ser orientadas mais pelo calendário eleitoral do que por critérios técnicos. “A pesquisa contribui para o debate sobre transparência fiscal e governança, ao evidenciar como o uso político do orçamento pode impactar diretamente a dinâmica democrática”, finaliza.