Cena

Romance sobre desejo e ruptura marca a estreia de Thiago Sobral

02/04/2026 Isabela Marangoni
Divulgação

A articulação entre fé, violência e desejo — com a homossexualidade no centro de uma trama atravessada por conflitos familiares e repressão social — move O Pai, a Faca e o Beijo, romance de estreia do escritor cubatense Thiago Sobral. Publicado pela Editora Patuá, o livro será lançado no dia 11 de abril, às 18h, no Mangue Steak e Pub (Praça Januário Esteves de Lara Dantas, 216, Vila Nova).

A obra dialoga com a formulação de Sigmund Freud sobre a necessidade simbólica de “matar o pai” como etapa de ruptura e construção da autonomia psíquica. No romance, essa ideia ganha contornos concretos e perturbadores na trajetória de Santiago, um jovem que transita entre o desejo, a repressão e a violência que o cerca.

A origem do livro remonta a uma conversa, ainda em 2022, entre o autor e amigos. “Estávamos falando de política quando alguém disse que, para o Brasil ‘ir para frente’, precisava ‘matar o seu pai’”, relembra. A frase, inicialmente ligada ao debate público, permaneceu reverberando até se tornar o impulso inaugural da narrativa. “Algumas semanas depois, escrevi: ‘muitos quiseram matar o próprio pai, eu também quis matar o meu’”.

Apesar do impacto inicial, o projeto ficou em suspenso. Foi apenas em 2025, após a experiência com um primeiro livro não publicado, que Sobral retomou a escrita. A partir daí, mergulhou em pesquisas sobre casos reais de parricídio e conceitos da psicanálise, como o complexo de Édipo e o mito do pai da horda.

Ambientado em Cubatão, o romance acompanha a relação entre Santiago e Davi, conhecido como Pirueta. O que poderia sugerir um enredo amoroso convencional rapidamente se desfaz. No lugar da previsibilidade, instala-se um campo de tensão permanente, marcado por silêncios, ruídos e violências que se disfarçam de cuidado.

No centro da narrativa está também a figura do pai, Luiz Severo, migrante nordestino e operário da indústria. Homem de poucas palavras, acredita proteger o filho, mas sustenta uma dinâmica opressiva. “Eu queria construir um pai que não falava”, afirma Sobral. “Era um pai que queria, mas não conseguia”. Esse vazio de comunicação se torna o eixo dramático da história: o filho espera — e nunca recebe.

Santiago, por sua vez, escapa de qualquer leitura confortável. Jovem, negro e homossexual, enfrenta conflitos internos atravessados por uma sociedade marcada por machismo, racismo e homofobia. “Ele não consegue se entender, e isso gera uma revolta muito grande”, diz o autor.

Ao mesmo tempo em que sofre essas violências, também as reproduz, compondo um retrato contraditório e inquietante. “A vida é feita de contradições, e personagens assim ampliam a possibilidade de identificação”, defende Sobral. Em contraponto, Davi surge como uma presença luminosa — ligado à arte, à liberdade e à afirmação de si —, representando um caminho possível que Santiago não consegue sustentar.

Ao redor desse núcleo, outros personagens intensificam a sensação de claustrofobia: uma mãe paralisada pela omissão e um padre que expõe as fissuras da fé institucional. Embora não seja um livro sobre religião, a experiência do autor como ex-seminarista atravessa a obra de forma simbólica, seja nas epígrafes bíblicas, seja nas ambientações ligadas ao universo religioso. “É difícil eu fazer algo que não tenha influência desse período”, afirma. “Há um retrato de bastidores que eu conheço bem”.

Mais do que cenário, Cubatão opera como força ativa na narrativa, condicionando comportamentos e ampliando o peso do julgamento social. O ambiente industrial, descrito como “quente” e “agressivo”, reforça a sensação de sufocamento. “A existência de Santiago é como se estivesse sendo abafada”, resume o autor.

O título sintetiza os pilares da obra. “Esses três substantivos são fundamentais”, explica Sobral. Inicialmente pensado como A Faca e o Beijo, o nome ganhou densidade com a inclusão da figura paterna. “O pai, embora não seja o protagonista, é central”.

Com ecos de Machado de Assis, Sobral constrói um romance direto, tenso e profundamente humano, que expõe hipocrisias e impasses morais sem oferecer alívio. “Eu não quero conforto. Quero que o leitor se sinta incomodado”, afirma. “Que pense no que poderia ter sido, mas não foi — e no que ainda pode ser”.

O livro estará disponível no lançamento e também no site da editora.