Pós-créditos

A Noiva

20/03/2026 Thaís Lima
Divulgação

O filme da semana é A Noiva, dirigido por Maggie Gyllenhaal, que revisita o universo de Frankenstein. E dessa vez, não temos o olhar do monstro nem o do doutor, mas sim o de uma mulher que ele tanto sonhou. Inspirado na obra de Mary Shelley, o filme propõe uma nova releitura ao colocar a Noiva no centro da narrativa.

No elenco, temos a incrível Jessie Buckley, que acabou de ganhar o Oscar de Melhor Atriz, além de Christian Bale no papel de Frankenstein, Annette Bening, entre outros.

A trama começa com um prelúdio curioso: a própria Mary Shelley lamenta sua morte, dizendo que ainda tinha muito a dizer, e busca um corpo para continuar existindo. É assim que encontramos Ida, personagem de Jessie Buckley, uma mulher envolvida com gângsters e imersa em um cenário caótico. No meio disso, ela sofre um “acidente”.

Do outro lado da cidade, temos Frankenstein em busca do que sempre lhe foi negado: uma noiva. Com a ajuda da Dra. Euphronius, ele encontra um corpo e dá início à sua criação.

E é nesse ponto que a narrativa deixa de ser apenas sobre criação e passa a ser sobre existência. Com referências a Herman Melville, “preferiria não”, vemos que, após essa nova vida, Ida reage com resistência. Ela tenta se entender dentro de um corpo novo, sem memória, dividido com outra presença, a de Mary Shelley, criando uma dualidade entre identidade e imposição.

A partir daí, Ida e Frank passam a se envolver em situações caóticas, quase ao estilo de Bonnie and Clyde, mas com um diferencial: ele busca controle, ela busca sentido. Ida passa a acessar fragmentos de sua vida anterior e, em alguns momentos, se coloca como voz ativa, defendendo outras mulheres e questionando a forma como são tratadas e reduzidas. Esses discursos fazem surgir um movimento coletivo, um impulso de revolta, de afirmação, de existência.

Com o caos promovido, surge uma dupla de detetives, interpretados por Peter Sarsgaard e Penélope Cruz, que adicionam outra camada à narrativa. A personagem de Penélope Cruz é sagaz, rápida, inteligente, mas ainda assim é constantemente apresentada como secretária do detetive, reforçando uma lógica que o filme insiste em expor: a de que, mesmo quando a mulher tem capacidade, ainda precisa ocupar um lugar menor para ser aceita.

No fim, A Noiva! mostra a dificuldade de uma mulher que quer existir por si, sem precisar de um marido, de um criador ou de alguém que a defina. Talvez por isso ela seja só a Noiva! e não a noiva de alguém.