Cena

Personagens de Ariano Suassuna são inspiração para ilustrações

14/03/2026 Isabela Marangoni
Divulgação

Em um experimento livre e despretensioso de aproximar suas personagens do universo mágico de Ariano Suassuna, a ilustradora Nice Lopes estreia, no dia 14 de março, no Espaço Bangalô (Rua Álvaro Alvim, 149 – Embaré), a exposição Arianices. A mostra reúne trabalhos que colocam em diálogo o imaginário feminino e lúdico da artista com a poética do Movimento Armorial, idealizado pelo escritor paraibano. A exposição fica em cartaz até 8 de abril.

As obras dialogam com as iluminogravuras e os sonetos produzidos por Suassuna no contexto do Movimento Armorial, movimento que busca valorizar as raízes populares da cultura brasileira e que já soma mais de cinco décadas de existência.

A ideia da exposição nasceu a partir de um projeto pessoal que Nice mantém há anos: a criação de calendários ilustrados. “Desde 2006, mais ou menos, eu faço calendários. Já virou uma tradição minha elaborar, todo ano, calendários com duas ilustrações diferentes”, conta a artista.

Foi durante a produção da edição de 2024 que surgiu o impulso para mergulhar na obra de Suassuna. “Eu vi um catálogo de uma exposição chamada Armorial 50 anos e fiquei curiosa. Já tinha ouvido falar do movimento armorial, mas não sabia exatamente do que se tratava. Quando comecei a pesquisar, descobri também as iluminogravuras que o Ariano fazia e achei aquilo muito interessante”, explica.

Conhecido principalmente como dramaturgo e autor da peça Auto da Compadecida, Suassuna também produziu obras visuais acompanhadas de poemas. “Eu sabia que ele era dramaturgo, escritor, poeta. Mas não sabia que ele desenhava também. Quando criou o movimento armorial, ele desenvolveu o que chamou de iluminogravuras, gravuras inspiradas na estética do cordel, acompanhadas de sonetos”, afirma.

A partir dessas referências, Nice decidiu misturar o universo armorial com seu próprio estilo. “Eu geralmente ilustro meninas e mulheres. Então misturei esse mundo do Suassuna com o meu. As obras têm essa pegada do cordel e das iluminogravuras dele, mas também trazem as minhas personagens”.

Digital e artesanal

As 12 obras que compõem a exposição nasceram inicialmente como ilustrações digitais — as mesmas que deram origem a um calendário lançado pela artista em 2025. O processo, porém, ganhou novas camadas quando as imagens foram transformadas em peças físicas. “Hoje em dia o ilustrador trabalha muito no computador, principalmente para atender demandas de livros. Mas eu quis unir esse movimento mais manual com a tecnologia de hoje”, explica.

Na série apresentada em Arianices, Nice combina ilustração digital com tecidos, linhas e elementos de costura, criando peças híbridas que dialogam com o fazer artesanal e com referências da cultura brasileira.

Para isso, as imagens foram impressas em tecido e aplicadas sobre telas. “Eu imprimi em tecido, recortei, colei nas telas, usei passamanaria como enfeite em volta e costurei. Então a exposição tem muito desse fazer manual, mesmo que a origem do desenho seja digital”, conta.

Personagens

A estética da mostra também dialoga com elementos do imaginário nordestino, especialmente da literatura de cordel e do sertão. As obras apresentam criaturas híbridas, símbolos e animais inspirados na iconografia armorial. “Tem muitos seres alados, animais e figuras misturadas. Por exemplo, meninas com corpo de mulher e pernas de ave, além de cobras, cavalos e onças”, descreve.

Essa mistura entre humano e animal é uma característica recorrente no trabalho da artista. “Eu gosto de mesclar o ser humano com o animal, principalmente com feições infantis. Acho que a criança e o animal são seres muito puros, e gosto de retratar isso no meu trabalho”.

Por trás das imagens

Entre as obras da exposição, uma tem significado especial para a ilustradora. Inspirada em um dos poemas de Suassuna, o soneto “O Amor e a Morte” retrata uma figura híbrida entre menina e cervo. “Eu desenhei uma menina com cabeça de menina e corpo de cervo, com chifres. Esse trabalho me toca muito, talvez porque eu sempre gostei muito desse animal”, conta. “O poema fala de uma corça abatida, e isso acabou influenciando a criação da imagem”.

Além das ilustrações, a exposição também apresenta os sonetos de Suassuna que inspiraram as obras, permitindo ao público perceber o diálogo entre texto e imagem. “Quero que as pessoas leiam os poemas e percebam que não é só um desenho. Tem uma história por trás, tem referência, tem a história do Brasil, tem o cordel, o maracatu, tudo ali misturado”, afirma.

Valorização da cultura brasileira

Para Nice, a exposição também é uma forma de incentivar o público a redescobrir a riqueza da cultura brasileira. “Espero que as pessoas percebam que a gente tem tanta coisa boa nesse país. Que vejam os símbolos, a linguagem, e se perguntem de onde vêm essas referências”, diz.

Oficina

Durante o período da exposição, a artista também realizará uma oficina especial. No dia 28 de março, às 9h, Nice ministra uma atividade de autorretrato armorial, aberta a crianças e adultos. “A proposta é que cada pessoa faça um autorretrato inspirado no movimento armorial. Vai ser um momento para desenhar, experimentar e criar manualmente”, explica. As inscrições para a oficina devem ser feitas pelo WhatsApp (13) 99709-9025 do Espaço Bangalô.