
Há mais de três décadas, o crítico de cinema Waldemar Lopes transforma a temporada do Oscar em um momento de encontro para cinéfilos em Santos. A tradicional palestra sobre a premiação chega à 32ª edição nesta terça-feira (10), às 20h, no Cine Roxy 5, e antecede a exibição da cerimônia no domingo (15), evento que também se consolidou como um dos mais aguardados pelos fãs de cinema na cidade.
A iniciativa nasceu de forma inusitada, em uma sala de aula, quando Waldemar lecionava na escola Open House Idiomas. “Eu estava dando um curso sobre cultura americana e, quando entrava na parte de cinema, falava do Oscar e dos filmes indicados. Os alunos gostavam muito. Então resolvi fazer a primeira palestra, que aconteceu em 1995, na minha própria sala de aula. O filme vencedor naquele ano foi Forrest Gump”, lembra.
O interesse foi crescendo e o encontro ganhou novos espaços ao longo dos anos. No início, as palestras eram realizadas em inglês; depois, passaram a ter versões também em português. “A procura começou a aumentar muito. Fiz parceria com a Livraria Martins Fontes, depois fui para a Associação dos Médicos e, por fim, cheguei ao lugar perfeito, que é o Cine Roxy. Já estou lá há mais de dez anos”.
Cultura e solidariedade
Além do conteúdo sobre cinema, o evento também mantém um caráter solidário. Para participar, o público troca o ingresso por um quilo de alimento não perecível, que é destinado a ações sociais. “Desde o começo eu quis que fosse uma ação comunitária. Sempre arrecadei alimentos para doação. Hoje, tudo vai para a Paróquia do Senhor dos Passos e de Nossa Senhora das Dores, que ajuda famílias necessitadas. É uma maneira perfeita de unir cultura com uma benfeitoria para a sociedade”.
Ao longo dos anos, comerciantes e empresários da cidade também passaram a apoiar o evento com brindes sorteados para o público. “Restaurantes, cafés e lojas da cidade colaboram com brindes. Tem gente que participa desde o começo. Isso mostra como o evento acabou criando uma rede de apoio na cidade”.
Palestra pré-Oscar
Na apresentação deste ano, Waldemar comenta os filmes indicados, atores, diretores e curiosidades da história da premiação. “A palestra é bem diversificada. Falo dos indicados, das categorias, mas também trago curiosidades, histórias de artistas esnobados e momentos marcantes do Oscar. Também mostro trailers dos filmes indicados e de produções clássicas”.
Entre os destaques da edição deste ano está a homenagem ao ator Tom Cruise, que recebeu um Oscar honorário. “Além dele, vou falar também sobre Robert Redford e Diane Keaton, duas figuras fundamentais do cinema”.
“Tempero brasileiro”
A edição deste ano traz um motivo especial para os brasileiros: o filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, está entre os indicados, com atuação de Wagner Moura. “Temos um tempero especial para o Brasil. É um fato histórico ter um ator brasileiro falando português na competição. Isso traz um interesse enorme do público”.
Apesar da disputa acirrada, Waldemar acredita que a categoria de Melhor Filme Internacional pode ser o caminho mais provável para uma vitória brasileira. “Não é uma disputa fácil. Mas, se vier um Oscar, acredito que seja na categoria de filme estrangeiro”.
Favoritos da premiação
Entre os concorrentes deste ano, o crítico aponta alguns destaques. “Os dez filmes indicados trazem propostas bem diferentes. Alguns são mais desafiadores para o público, como Bugonia. Outros têm apelo mais popular”.
Entre os favoritos, ele destaca Uma Batalha Após a Outra. “É um filme forte, que vem ganhando prêmios importantes. Tem Leonardo DiCaprio em uma grande interpretação. Para mim, é o favorito”.
Outro destaque é Pecadores, que lidera as indicações. “O filme tem uma atuação muito marcante de Michael B. Jordan e trabalha temas fortes como racismo e crueldade”.
Surpresas e esnobados
Como acontece todos os anos, algumas ausências chamaram a atenção do crítico. “A maior esnobação deste ano foi Wicked – Parte 2. No ano passado teve dez indicações ao Oscar e, neste ano, não recebeu nenhuma”.
Entre os atores que poderiam ter sido lembrados, ele cita Paul Mescal. “Ele fez um trabalho lindíssimo em Hamnet, um filme sensível sobre Shakespeare e sua esposa. Fiquei chateado de ele não ter sido indicado”.
Fascínio permanente
Mesmo com críticas e controvérsias ao longo dos anos, Waldemar acredita que o Oscar mantém um lugar único na cultura do cinema. “O Oscar é quase centenário e continua sendo uma referência. Quando alguém quer falar do melhor de alguma coisa, usa a palavra Oscar. Pode criticar, mas ele tem um fascínio enorme”.
Experiência na telona
A transmissão da cerimônia no Cine Roxy, no domingo (15), às 20h, também já se tornou uma tradição em Santos. Para Waldemar, assistir à premiação na telona transforma completamente a experiência. “Não existe coisa melhor do que assistir a uma premiação de cinema dentro de um cinema. O Roxy é um símbolo de resistência, um verdadeiro cinema de rua. Na telona, você vê tudo com uma qualidade incrível de imagem e som”.
A entrada acontece mediante a doação de 1 kg de alimento não perecível e cadastro no Roxy Club.
E, como se trata de uma transmissão ao vivo, tudo pode acontecer. “O Oscar é ao vivo e sem cortes. Já tivemos gafes históricas, como o erro na premiação de La La Land, e momentos inesperados. Isso faz parte do espetáculo”.
Além de Waldemar Lopes, uma equipe de comentaristas acompanha a premiação ao longo da noite, entre eles André Azenha, crítico, professor e diretor do Santos Film Fest; Gustavo Klein, diretor de redação do Jornal da Orla; e Bárbara Farias, crítica do Jornal A Tribuna e da TV Tribuna.
Ao longo da noite, haverá sorteios de chocolates, ingressos de cinema, livros, jantares e outros brindes oferecidos por parceiros da região, com apoio da Open House Idiomas.
Segundo Waldemar, quando o Brasil está na disputa, a atmosfera no cinema lembra até uma final de campeonato. “No ano passado parecia Copa do Mundo. Quando aparecia o filme brasileiro, era uma gritaria de aplausos. O público brasileiro torce com paixão”.


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