
A cerca de 42 quilômetros da costa, o Parque Estadual Marinho da Laje de Santos abriga um universo invisível à maioria das pessoas. Um santuário submerso reconhecido como um dos melhores pontos de mergulho do mundo, onde a vida marinha pulsa em cores, movimentos e silêncios profundos.
Até sexta-feira (6), esse cenário emerge à superfície na Associação Comercial de Santos (ACS), no Centro Histórico, com a exposição FotoSub – Laje de Santos. A mostra transforma o fundo do mar em narrativa visual de preservação — e convida o público a enxergar o que normalmente permanece oculto.
São 30 fotografias subaquáticas, três imagens aéreas captadas por drone e um vídeo especial que revelam tartarugas, raias, garoupas, registros em macro de anêmonas e peixes minúsculos — além de um flagrante raríssimo: um tubarão-baleia. Uma roupa completa de mergulho integra a ambientação, aproximando o visitante da experiência sensorial de estar submerso.
Projeto coletivo
A ideia nasceu sem pretensão grandiosa. Quando a escola e operadora de mergulho Mar Sub completou 30 anos, o empresário e instrutor Marcelo Obeidi decidiu celebrar a trajetória com amigos e clientes. Foi durante a comemoração que surgiu a provocação que daria origem à exposição. “Quem não mergulha não sabe o que a gente vê, não sabe o que a gente sente. Precisávamos mostrar isso”, relembra.
O projeto estreou na Pinacoteca Benedicto Calixto e agora inicia nova etapa itinerante na ACS, com circulação prevista por outros espaços nos próximos meses.
Para viabilizar a mostra, Marcelo reuniu parceiros estratégicos, entre eles Dani Scola, da Lancha Pé de Pato – Operadora de Mergulho Laje de Santos, responsável pelo transporte dos mergulhadores até a área de preservação. Participam também os fotógrafos João Paulo Scola, Erme Covisi, Kadu Pinheiro, Lúcio Moreira, Roberto Akira, Ulisses Turatti e Virgílio Costa (Kbça), todos especializados em imagem subaquática.
A curadoria buscou diversidade e equilíbrio. “Estipulei cinco fotos de cada fotógrafo. Pedi 15 ou 20 imagens para selecionar e evitar que virasse uma exposição só de tartaruga ou só de raia. Quis mostrar a pluralidade da fauna e da flora”, explica.
O resultado é um recorte que combina rigor estético e consciência ecológica. As imagens foram produzidas com equipamentos profissionais — câmeras DSLR e mirrorless, lentes macro e grande-angular com caixas estanques de alto desempenho —, mas o impacto vai além da técnica.
Beleza que educa
Mais do que encantar, a exposição assume função educativa. A Laje de Santos é uma área de proteção integral, com visitação restrita a embarcações autorizadas. “A gente quer mostrar o que pode e o que não pode. Preservar. A Laje é um parque estadual marinho, tem regras. E nós, operadoras, também somos fiscalizadores”, afirma.
Há um trabalho contínuo de conservação. Tartarugas resgatadas após ficarem presas em redes são encaminhadas ao Aquário Municipal de Santos, tratadas e devolvidas ao mar — muitas vezes à própria Laje. “Elas são marcadas. Já foi comprovado que um, dois, três anos depois, continuam lá. Porque tem alimento. Elas gostam dali”, conta.
Entre maio e julho, a região também recebe raias-manta que utilizam a área para acasalamento, atraídas pelas condições favoráveis de temperatura e correntes marítimas. São ciclos naturais que reforçam a importância daquele território marinho — e que agora ganham visibilidade.
Marcelo rejeita a ideia de que a mostra seja apenas um conjunto de belas fotografias. “A seleção foi pensada para mostrar todos os tipos possíveis de espécies da Laje. O objetivo é que o público veja a maravilha que a gente tem aqui no fundo do nosso quintal e queira preservar”.
A exposição propõe um mergulho simbólico — e, para alguns, talvez desperte o desejo de um mergulho literal.
A experiência abriu caminho para um novo projeto. A partir de junho, Marcelo pretende lançar a exposição Ilhas do Brasil, reunindo dez ilhas brasileiras, com cinco imagens de cada — quatro subaquáticas e uma aérea — totalizando 50 fotografias, além de vídeo especial e catálogo impresso.
Com 33 anos à frente da Mar Sub e 45 anos de atuação como instrutor nacional e internacional, ele resume o propósito da iniciativa. “Eu quis começar a mostrar tudo isso. Mostrar o que a gente vê e incentivar as pessoas a viver isso pessoalmente”.
No fim das contas, FotoSub – Laje de Santos não é apenas uma exposição. É um gesto de pertencimento. E um apelo direto. “Vamos preservar tudo isso. Por favor, vamos preservar”.


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