Cena

Residência Arrastão está com inscrições abertas na Baixada

20/02/2026 Isabela Marangoni
Luciana Antonio

Criado a partir de um episódio real de violência urbana, o Arrastão, da Cia Etra, nasceu em 2015 quase por acaso e se consolidou como uma das experiências mais potentes de ocupação artística do espaço público no Estado de São Paulo. Agora, o projeto chega à Baixada Santista com inscrições abertas até 21 de fevereiro para selecionar dez artistas que participarão de uma residência de cinco dias, culminando em seis apresentações em Santos, Cubatão e São Vicente.

A origem do trabalho remonta a um convite feito ao coreógrafo Jandé Potyguara para criar uma obra para a Bienal Internacional de Dança do Ceará. Ele partiu sem tema, sem nome e sem projeto escrito.

No primeiro dia de audição, os jovens bailarinos chegaram abalados: haviam sofrido um arrastão no caminho para o ensaio. Celulares, tênis e carteiras foram levados. O choque coletivo se tornou matéria-prima. “Ele começou a investigar como aqueles corpos reagiam à violência”, conta a diretora geral da companhia, Ariadne Fernandes. Ao telefone, o coreógrafo admitiu que ainda não sabia como chamar o trabalho. A resposta veio direta: Arrastão. A estreia aconteceu em 2018, no Circuito Sesc de Artes.

Corpo coletivo e resistência
Pensado desde o início para a rua, o Arrastão encontrou no espaço público sua dimensão mais radical. Sem sede fixa, a companhia ensaia em praças e espaços abertos. A escolha é estética, mas também política. “O Arrastão lida com corpos diversos. Corpos que sofrem preconceito, racismo. É um corpo político ocupando um espaço que é seu de direito”.

A pesquisa mergulha nas periferias, nos corpos em festa e nas manifestações populares. Carnaval, danças urbanas, gestos cotidianos e identidades plurais atravessam a criação. “Cada comunidade apresenta o corpo de um jeito. O Arrastão é essa massa que transita por todas essas diferenças”.

Obra em reconstrução
Depois de circular nacionalmente pela Funarte — passando por cidades como Natal, Belém e Fortaleza — e integrar o ProAC, a companhia reformulou seu modelo de circulação. Em vez de viajar com todo o elenco, passou a realizar residências com artistas locais. “Não fazia sentido gastar metade do orçamento com passagens. Começamos a recriar a obra a partir da realidade de cada cidade”.

Cada território traz novas sonoridades, urgências e atravessamentos. Violências contra mulheres, pessoas trans e outras minorias aparecem nas criações. “Cristalizar a obra seria um erro. Nossos trabalhos são flexíveis, estão sempre em processo”.

Residência na Baixada
A nova edição será realizada de 24 a 28 de fevereiro, na Unifesp (R. Quinze de Novembro, 195 – Centro Histórico). Os dez participantes serão selecionados em aula aberta no dia 23 e receberão cachê de R$ 1 mil ao final do processo. As inscrições podem ser feitas pelo site.

Durante cinco dias, os artistas terão acesso às metodologias desenvolvidas pela companhia ao longo de 25 anos, com práticas de dança, ensaios e recriação coletiva da performance. A condução será feita por Ariadne Fernandes, Jandé Potyguara, Tamara Sayumi, Juliana Melhado e Rodney.

A obra resultante ocupará as ruas em deslocamento coletivo, transformando o espaço urbano em palco. Com estrutura não linear, a ação dialoga com flash mobs, corridas, cantos e interações diretas com o público. O uso do celular em cena também integra a dramaturgia.

O projeto conta com vagas afirmativas para pessoas trans, travestis, não binárias, mães solo, pessoas pretas, indígenas e PCDs. “Não é só por causa do edital. Esse já é o público da nossa pesquisa”, afirma.

Ao final, a expectativa é simples e direta. “Que o público se divirta. Que participe quando se sentir convidado. A performance é isso: um convite para quebrar tabus e vergonhas”.