
No ano passado um musical espanhol chegou forte à temporada do Oscar e parecia ter chances reais de superar o filme brasileiro. A trajetória mudou quando a atriz principal resolveu falar demais em entrevistas, comentou rivalidades e alimentou polêmicas alheias à qualidade da obra. O desgaste público desviou o foco do filme e enfraqueceu sua campanha.
Agora, a ironia se repete. O diretor espanhol Oliver Laxe, de Sirat, colocou sua produção em situação delicada ao falar dos brasileiros de forma desdenhosa. Ao sugerir que membros da Academia votariam em qualquer coisa por nacionalismo, ele transformou uma disputa artística em atrito informal que repercutiu mal.
O efeito imediato foi ver Sirat associado às declarações do diretor do que às qualidades do filme. Em vez de debates sobre narrativa ou impacto estético, a conversa passou a girar em torno de respeito e estratégia de campanha.
A ironia maior está em como dois projetos espanhóis, em anos seguidos, tropeçaram na mesma pedra: a exposição excessiva e mal calculada de quem deveria proteger a obra.
Em ambos os casos, fica claro que na corrida pelo Oscar não basta ter bom filme. A forma como seus representantes se comportam publicamente pesa. Declarações impensadas criam ruído e oferecem munição. Não que Sirat fosse uma ameaça a O Agente Secreto, que parece – ao menos neste momento – ter um certo favoritismo ao prêmio. Mas também não ajuda em nada.
RAVE NO MARROCOS
Sirat, que tem produção de Pedro Almodóvar e de seu irmão Augustín, mostra pai e filho chegando a uma rave em uma montanha do Marrocos. Eles estão em busca da filha/irmã, que desapareceu em uma destas festas. Conforme a busca avança e envolve cada vez me nos esperança, eles experimentam uma sensação de liberdade rara e seguem e caminho da última festa do gênero no deserto.
O filme ganhou o prêmio do juri no Festival de Cinema de Cannes e também marcou a abertura da mais do que tradicional Mostra de Cinema de São Paulo. Deve chegar aos cinemas brasileiros ainda antes do Oscar, em 26 de fevereiro próximo.
DITADURA NO BRASIL
Já O Agente Secreto, produção brasileira que ganhou o Critics Choice Awards de Melhor Filme Internacional, o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes e o Globo de Ouro na mesma categoria e também na de Melhor Ator, bateu o recorde de Cidade de Deus e conquistou quatro indicações ao Oscar: Melhor Filme, Filme Internacional, Ator e Melhor Elenco (categoria nova).
O filme é um suspense ambientado no Recife na segunda metade da década de 70, em plena ditadura militar. Marcelo, um professor e especialista em tecnologia, tenta es capar de seu passado misterioso e violento, mas se vê encurralado pela paranoia, vigilância e pela busca de refúgio na cidade, enquanto é vigia do por todos os vizinhos.
O filme é dirigido por Kleber Mendonça Filho e tem ainda no elenco Udo Kier, Maria Fernanda Cândido e a adorável veterana Tânia Maria, de 78 anos.


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