Política

Kayo Amado: “O que estamos administrando, se o dinheiro está em Brasília?”

22/01/2026 Marco Santana
Kayo Amado: “O que estamos administrando, se o dinheiro está em Brasília?” | Jornal da Orla

Apesar de ser a 22ª cidade mais populosa do estado, São Vicente é a 4822ª do Brasil, em termos de recursos. Em seu segundo mandato como prefeito, Kayo Amado (Podemos) afirma que este desequilíbrio é a principal causa das dificuldades, “um problema crônico, estruturante”. Nesta entrevista exclusiva ao Jornal da Orla, ele fala das suas estratégias para mudar esta situação, que passa inclusive pela possibilidade de largar o cargo para disputar uma cadeira na Câmara Federal.

O que vicentino pode comemorar nesse aniversário da cidade, que não podia comemorar no ano passado?

Uma cidade de conquistas. Ela avançou, seja com a política pública, consolidada, de uniforme para a criançada até material escolar. Deixou de ser só “vai a ter ou não vai ter?” Pode comemorar que a Biquinha dos doces está voltando, está em obras. A obra do VLT pra área continental está avançando. No outro aniversário, a gente ainda não enxergava isso. Tem uma série de investimentos preparados para fazer na comunidade. Estamos enxergando uma maternidade nascer, uma UPA tomando forma. Uma rodoviária que, depois de tantos problemas e dificuldades de décadas, vai sair do papel. Todo o concreto, toda a laje, que a gente armou em 2025, que foi um ano duro de fazer isso acontecer, 2026 é o ano da entrega.

O senhor reiteradas vezes se queixa que os recursos são muito aquém das necessidades da população. Melhorou, piorou ou continua ruim?

Enxergo isso como um desafio, de uma década de ajustes necessários. O problema da cidade é estruturante, é crônico. A gente olha para São Vicente, enxerga uma cidade numa região toda conurbada. Aí, você olha os municípios vizinhos e começa a querer se comparar. De um lado, um município (Santos) que tem um dos maiores PIBs per capitas do Brasil, por causa do porto. Do outro lado, uma cidade que se estruturou com a construção civil, em torno de uma ‘praia grande’. São Vicente é o 22º maior do estado, em termos de população, mas quando você pega a receita é o número 4822 do Brasil. Então, esse é um problema que não se resolve do dia para a noite. O que a gente tem buscado fazer? Incentivar a construção civil em eixos estratégicos. Isso ajuda a cidade a melhorar a arrecadação, a prover uma política de habitação mais perto da área central com serviços, desenvolver a área continental da cidade, reaquecer o eixo Centro-Praia, que é um eixo gerador de emprego, muito voltado ao comércio e ao turismo. A dependência do serviço público é muito grande, 1/3 da população está inscrita no CAD único, é um número alarmante, é dos mais altos do estado. É um desafio de uma década, até equilibrar despesa e receita.

E o senhor está apostando na securitização como estratégia para aumentar a arrecadação. Quanto a Prefeitura tem para receber e qual a expectativa de recuperar esses débitos?

A securitização é parte dessa estratégia. Muitas grandes áreas não pagam seus impostos há décadas e nada foi feito. A prefeitura tem uma incapacidade, como a maioria das prefeituras do Brasil, de cobrar devidamente esses tributos que não são pagos. Então, a securitização vem para antecipar receitas, que você teria a receber, de um bolo estimado em R$ 3,6 bilhões. É uma dívida suja que precisa ser limpa. Além disso, a gente está acompanhando a reforma tributária. Se for bem feita, pode ajudar a equilibrar esse jogo. Hoje, os governos estadual e federal repassam menos do que deveriam, per capita, para São Vicente. Uma cidade, por décadas, desequilibrada precisa de um prazo para se reequilibrar. E é isso que a gente tem buscado fazer, evoluir degrau por degrau a cada ano. Não tem fórmula mágica. É a cada ano conseguir comprovar um pouco mais de melhoria de gestão.

E a programação do aniversário desse ano, o que tem de diferente em relação aos anos anteriores?

O grande diferencial é arena de verão na praia, vai ter um movimento maior na praia com esporte, cultura e dança. Você estava fazendo uma brincadeira comigo perguntando da Carreta Furacão. Foi uma ideia que a gente sentiu que o povo comprou. A Carreta Fabulosa está aí. A Encenação está aí. Uma novidade é nova edição da Feira 360, que dá oportunidade para os empreendedores da cidade realizarem exposições dos seus produtos. Tem muita gente boa produzindo coisa boa na cidade e essa Feira 360 traz palestras, workshops e exposições, somada à estrutura da encenação. É uma cidade que voltou a ser animada, agitada.

O senhor já resolveu se vai deixar a Prefeitura e disputar uma vaga na Câmara Federal?

Ainda não. Busquei refletir muito, especialmente com a minha família nesse final de ano, mas ainda não tomei uma decisão definitiva. O Brasil está vivendo um cenário muito confuso, onde o Congresso, de certa forma, assumiu boa parte da capacidade de investimento do orçamento federal. E me parece que essa regra do jogo não caminha para mudar. Então, começo a refletir se a gente não deveria levar uma candidatura de São Vicente para, de fato, trazer recursos para os municípios que mais precisam, os mais pobres. Às vezes, eu penso “o que estamos administrando, exatamente, se o dinheiro está em Brasília e não está chegando aqui?”. Então, dá vontade de trabalhar para mudar essas regras do jogo de um Brasil que se desequilibra cada vez mais.

Tem um prazo, inclusive o senhor teria que renunciar…

Prazo é para isso. Não é um sonho de vida. Eu acho que é uma consequência natural e de um governo bem avaliado, mas é uma reflexão. Não estou fazendo pelo meu projeto político, é uma leitura de cidade. Meu sonho é levantar essa cidade para ninguém mais achar que pode pisar na gente. Esse é o ponto.