Política

“Aumento da população não é motivo de orgulho”, diz prefeito de Praia Grande

17/01/2026 Marco Santana
“Aumento da população não é motivo de orgulho”, diz prefeito de Praia Grande | Jornal da Orla

Mesmo com as visíveis melhorias na cidade, o prefeito de Praia Grande, Alberto Mourão (MDB), demonstra cautela diante da expectativa de crescimento populacional em um intervalo de tempo muito curto. Ele diz com firmeza que não deseja este aumento. “Qualidade de vida não é quantidade”, pondera. Nesta entrevista, ele revela os planos para enfrentar os impactos desta mudança, faz um balanço do primeiro ano de seu sexto mandato e indica os planos para os próximos três anos.

Entrevista a Marco Santana

Muita coisa mudou desde que o senhor assumiu a prefeitura pela primeira vez, em 93. Quais os principais problemas hoje? Eles são diferentes dos daquela época…
Os problemas e a relação humana não têm nada a ver com 93. As pessoas não tinham o mundo digital, se relacionavam de forma diferente. Hoje não se discute metas de sociedade. Não se consegue reunir 10 pessoas para fazer uma discussão sobre um problema num bairro. O mundo se tornou muito digital. As reclamações são via rede social. As fake news têm sido muito horrorosas, deturpam a informação. Eu espero que não chegue ao fundo do poço e crie um meio de comunicação por redes mais responsável. Em 1993, havia um passivo social muito grande, 90% das ruas sem pavimentar, 83% das ruas sem esgoto, a coleta de lixo não era universalizada. Quando assumi, só tinha um pronto-socorro, que era uma sala com 80 m². No ano passado, mesmo com um orçamento sem dívidas, a gente encontrou um déficit orçamentário, um momento que ainda não digeri. Não sei o que aconteceu. A gente fez um esforço de remanejamento, de contenção, que permitiu que a gente equacionasse esse déficit.

Qual era o tamanho do problema?
Era um problema de dotação. É sempre mais difícil de resolver, porque você não cria dotação se não tem receita. Nas primeiras semanas de janeiro do ano passado, fiz um decreto de reorganização do orçamento, cortando 8% para poder entender o que estava acontecendo. Não estou criticando, porque orçamento não é feito pelo prefeito sozinho, é feito por todos. De qualquer maneira, superamos isso. É página virada.

 

Quais são os principais desafios que devem ser enfrentados hoje?
Meios para antecipar a colocação de serviço público diante do crescimento populacional. A gente precisa antecipar investimentos, e precisa do Estado do governo federal, para fazer a infraestrutura necessária para recepcionar esse crescimento. Eu não tenho como parar as pessoas, a liberdade de ir e vir. A expectativa é Praia Grande ser mais populosa que Santos em 2032. A gente tem 12 mil pessoas mudando para cá por ano. Não é bom, não é um orgulho. A gente tem que crescer a economia. Se a cidade cresce 5%, a economia tem que crescer no mínimo 5%, mas é ideal que ela cresça 10%. Eu não gostaria que a cidade passasse dos seus 450 mil habitantes, não sonho com uma cidade de 1 milhão de habitantes. Eu não acho que qualidade de vida seja quantidade.

Neste contexto, qual a parte que cabe à prefeitura e o que cabe aos governos estadual e federal?
A gente precisa crescer mais a economia. Eu não posso ter o Parque Industrial de Cubatão, como a antiga Cosipa, com milhões de metros quadrados, ocupando apenas 20% para produção. Podia gerar milhares de empregos. A gente precisa que o porto de Santos ou novas dinâmicas portuárias na região sejam incrementadas. A gente precisa que o Estado e o governo federal olhem para cá com a questão do ensino público superior. Nós nos dobramos à universidade privada, com todo respeito, mesmo que boas. A privada tem compromisso com o lucro. A universidade pública tem o compromisso de dialogar com o setor produtivo, pesquisar. São Carlos, Rio Claro, São José dos Campos e Campinas são polos econômicos porque têm universidades. A gente precisa formar mão de obra, caso contrário não atrai o setor produtivo. A gente precisa avançar nesse debate.

 

Diante desse aumento populacional, qual é a estratégia o senhor pensa para aumentar a arrecadação municipal, sem aumentar tributos?
A gente tem que falar de correção e não de aumento. Correção de inflação tem. O melhor é ampliar a economia, com a vinda de novas atividades econômicas voltadas à questão retroportuária, ou na questão logística e tecnologia. Assim, a gente pode ter um ganho de qualidade na arrecadação de impostos federais, que são as transferências, e aumentar o nosso ISS.

Nesse aniversário em Praia Grande, quais os presentes que o senhor pretende entregar pra população? E quais são seus objetivos até o final deste mandato?
Ah, a gente tem 149 ações em andamento. É o sexto mandato, então é natural que a população gere uma expectativa: “Ó, esse mandato tem que ser melhor que os anteriores”, né? As pessoas geram uma simbologia, mas cada um na sua área. Cada um olha a sua demanda e não olha de forma sistêmica. Eu espero terminar, nos próximos 24 meses, as ações de saúde. Minha meta é um médico para cada 1.800 moradores no programa Saúde da Família, que é o dobro do que é preconizado. Então, para mim, é um sonho. Eu falo que temos overdose de atendimento básico, um excesso de atendimento básico, quase 700 mil consultas de pronto socorro. Precisa ter menos na emergência e mais na preventiva. Políticas públicas de saúde são as preventivas, não só da sanitária, da política de vacinação, mas na política da Saúde da Família, que é um grande programa de governo, reconhecido mundialmente.
A gente precisa caminhar na área da infraestrutura e entregar obras de drenagem e macrodrenagem, como na região do Sítio do Campo, o canal Acara Mirim, na Vila Mirim, também tem um problema de assoreamento que a gente precisa fazer. E enfrentar um problema que é as ocupações que ocorreram ao longo de anos na Esmeralda e Ribeirópolis. Na orla marítima, é necessária uma reforma da macrodrenagem, porque houve a impermeabilização do solo. Tenho que fazer um trabalho técnico para absorver esses milhões de litros de água, um piscinão linear.
Na área da saúde, o meu sonho é a empresa pública que estamos abrindo, e criar a faculdade de medicina. Gostaria de terminar no meu governo. Na área do desenvolvimento econômico, é atrair os grandes players para cá, na área da logística e na área da tecnologia. Nós estamos trabalhando em cima disso para gerar milhares de empregos.