Cena

Massoni, um artista completo, referência em Praia Grande

18/01/2026 Gustavo Klein
Divulgação

Carlos Roberto Massoni chegou à Praia Grande em 1973, aos 13 anos, quando a cidade ainda tinha ritmo de balneário pequeno e a adolescência podia ser vivida sem grandes urgências. Entre a escola, a praia, o futebol e os amigos, ele não imaginava que ali começaria uma trajetória que, cinco décadas depois, o colocaria como um dos nomes mais resistentes, talentosos e singulares do teatro e das letras da Baixada Santista. Foi no colégio estadual da cidade que o palco apareceu pela primeira vez, em 1975, como um território de descoberta. O teatro era simples, quase improvisado, mas bastaram as luzes, a cortina e o ritual da encenação para que algo definitivo se instaurasse em sua mente e coração.

A estreia aconteceu em um espetáculo da escola, texto de uma colega, Malu Arruda. O ambiente era tão vivo que cada sala mantinha seu próprio grupo teatral, com o apoio irrestrito da direção. O então diretor, Adalto Marcondes Freire, confiava tanto nos estudantes que entregava a chave da escola para ensaios nos fins de semana. Aquele espaço escolar transformado em pequeno centro cultural marcou profundamente Massoni, que em pouco tempo passou a viver o teatro como necessidade, não como passatempo. Em 1977, já frequentava o circuito santista, aproximando-se do teatro amador e da Federação Santista de Teatro Amador, dirigida por Carlos Pinto, que anos mais tarde seria Secretário de Cultura de Santos.

Aos 17 anos, estreou no Teatro Municipal de Santos e entendeu que não haveria retorno. Mas no ano seguinte, a morte do pai, José Massoni, provocou uma ruptura brusca na vida familiar e pessoal. A crise de saúde que se seguiu, mais tarde compreendida como bipolaridade, exigiu dele um equilíbrio constante entre o cotidiano e a imaginação. O teatro passou a funcionar também como instrumento de sobrevivência emocional, uma forma de organizar o caos interno sem perder o contato com a realidade. A escrita veio cedo. Em 1976, ainda adolescente, Massoni escreveu sua primeira peça, ‘Luz, Câmara, Caixão’, movido mais pelo instinto do que por qualquer formação técnica.

A leitura constante de textos teatrais e a atenção à força do diálogo moldaram sua visão de cena. Ingressou na Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, onde cursou Letras. Foram anos de intensa produção artística, com o suporte direto da universidade. Lá, montou cerca de cinco espetáculos e dirigiu A Cantora Careca, de Eugène Ionesco, com autorização formal do próprio autor, que lhe enviou uma carta de Paris. Formado, Massoni passou por São Paulo, onde trabalhou no Teatro Hall como assessor de imprensa e promotor cultural, em contato com músicos e artistas que começavam a se firmar no cenário nacional.

Apesar da efervescência cultural, a cidade não se tornou um destino definitivo. Em meados dos anos 1990, ele voltou à Praia Grande, confirmando a máxima local de que quem bebe da água da cidade dificilmente se afasta para sempre. De volta, encontrou na educação um novo campo de atuação. Tornou-se professor e levou para a sala de aula a experiência teatral, apostando em aulas criativas e na escuta dos alunos. “Segui tentando ser para os estudantes o que os educadores da minha infância foram para mim”.

Seguiu assim até a aposentadoria, sem abandonar a dramaturgia. Ao longo dos anos, escreveu cerca de cinquenta textos e dirigiu inúmeros espetáculos, muitos deles alinhados ao teatro do absurdo, linguagem que já havia adotado de forma consistente a partir do fim dos anos 1980. Em suas peças, o mar e a paisagem da Baixada aparecem como presença sensível integrados a uma dramaturgia que exige atenção e repertório do público. A relação com Praia Grande é marcada por afeto e espírito crítico.

Massoni reconhece o crescimento urbano e o potencial turístico da cidade, mas aponta a necessidade de avanços contínuos no investimento em cultura para que se construa uma identidade artística sólida. Ao mesmo tempo, acompanha o surgimento e a atuação de artistas locais e observa movimentos recentes, positivos, de abertura para o teatro.

Celebrar cinquenta anos de carreira, para Massoni, não significa olhar para trás em busca de consagração, mas reconhecer um percurso feito de insistência, crises, reinvenções e vínculos profundos com o lugar onde tudo começou. Mesmo diante das dificuldades para formar grupos e produzir sem grandes recursos, ele segue aberto para novos encontros e projetos, mantendo uma postura simples diante do futuro, sem planos rígidos, deixando que a vida continue a conduzir o próximo ato.