Política

“Ação dos EUA pode estimular Tarcísio a disputar Presidência”

06/01/2026 Marco Santana
Arquivo pessoal

Além das consequências geopolíticas, a ação militar dos Estados Unidos na Venezuela também provocará impactos nas eleições brasileiras deste ano. Economia e política são temas umbilicalmente ligados e as decisões do presidente Donald Trump pode acabar influenciando as escolhas do eleitor brasileiro. Nesta entrevista, o economista Dênis Castro explica que fatos que ocorrem a centenas de quilômetros na vida do cidadão comum podem nortear as posições de candidatos, como a do governador paulista, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Como a ação dos EUA na Venezuela pode impactar a economia brasileira?
Dênis Castro- A ação dos Estados Unidos em relação à Venezuela é, antes de tudo, geopolítica, mas seus reflexos econômicos são reais e indiretos. O principal impacto ocorre pelo canal da instabilidade regional. Tensões envolvendo um grande produtor de petróleo afetam o humor dos mercados, elevam a percepção de risco e pressionam os preços internacionais de energia. Para o Brasil, isso pode significar maior volatilidade cambial, já que investidores tendem a buscar ativos considerados mais seguros em momentos de incerteza. Um dólar mais valorizado pressiona a inflação, especialmente em combustíveis e alimentos, reduzindo o poder de compra da população. Além disso, a instabilidade na América do Sul tende a reduzir o apetite por investimentos produtivos na região, inclusive no Brasil.

Como isso pode impactar as eleições presidenciais no Brasil?
Castro- A economia é sempre um elemento central nos processos eleitorais. Caso os desdobramentos internacionais resultem em inflação mais persistente, manutenção de juros elevados ou desaceleração do crescimento, o debate eleitoral tende a se concentrar no custo de vida, emprego e renda. Mesmo sendo um fator externo, o impacto é sentido no cotidiano da população. Em cenários assim, governos em exercício costumam ser mais cobrados, e a oposição tende a explorar o ambiente econômico adverso, associando dificuldades à condução da política econômica e da política externa.

Como isso afeta a candidatura de reeleição do presidente Lula, considerando a associação histórica do PT ao regime de Nicolás Maduro?
Castro- Esse é um ponto sensível do debate político. Embora o governo brasileiro não tenha responsabilidade direta sobre as ações do regime venezuelano, a associação histórica do PT com Nicolás Maduro tende a ser explorada politicamente por adversários. Do ponto de vista econômico-eleitoral, a questão extrapola o campo ideológico e entra no simbólico. A oposição deve utilizar o tema para reforçar narrativas de alinhamento a regimes autoritários, o que pode gerar ruído junto a setores do eleitorado moderado e do mercado, mais atentos à estabilidade institucional, previsibilidade econômica e segurança jurídica. O impacto sobre a reeleição dependerá, sobretudo, da capacidade do governo de dissociar sua política externa pragmática dessas narrativas e, principalmente, do desempenho da economia brasileira no período eleitoral.

Os últimos fatos podem estimular o governador Tarcísio a disputar a Presidência, em vez da reeleição em São Paulo?
Castro- O atual cenário pode, sim, estimular o governador Tarcísio a avaliar uma candidatura presidencial, mas essa decisão está diretamente relacionada aos problemas e fragilidades da sua gestão em São Paulo. Na segurança pública, o Estado enfrenta aumento da sensação de insegurança e questionamentos sobre a eficácia das políticas de combate ao crime organizado. Na saúde, persistem problemas estruturais de gestão, com filas, sobrecarga da rede hospitalar e dificuldades de articulação com os municípios. Outro fator relevante de desgaste político é a privatização da Sabesp. Embora defendida sob o argumento de eficiência e ampliação de investimentos, o processo vem sendo associado, por parte da população, à piora na qualidade do serviço, com relatos de falhas no abastecimento, atendimento deficiente e aumento das tarifas, o que afeta diretamente o custo de vida das famílias paulistas. Somam-se a isso as críticas à condução de privatizações e concessões em outras áreas sensíveis, como educação e transporte, além da falta de diálogo com servidores públicos, resultando em greves e conflitos institucionais. Do ponto de vista econômico, apesar da forte capacidade arrecadatória de São Paulo, há questionamentos sobre a priorização dos investimentos públicos e sobre a capacidade do governo de transformar ajuste fiscal em melhoria concreta da qualidade de vida da população. Nesse contexto, uma candidatura presidencial pode servir para deslocar o foco do debate estadual para uma agenda nacional mais ideológica, ainda que isso amplie os riscos políticos.

Muitos candidatos a deputado, estadual ou federal, vão tentar “surfar” nos acontecimentos, ideologizando a campanha. Vão ter sucesso?
Castro- A ideologização tende a ter sucesso limitado. Ela é eficaz para mobilizar bases eleitorais já consolidadas, especialmente no ambiente digital, mas apresenta alcance restrito fora desses nichos. O eleitor brasileiro, em geral, é mais pragmático e sensível a temas como emprego, renda, inflação e qualidade dos serviços públicos. Candidatos que conseguirem relacionar os acontecimentos internacionais aos impactos concretos no cotidiano da população, apresentando propostas objetivas, terão mais chances de sucesso do que aqueles que apostarem exclusivamente em discursos ideológicos.