Economia

Investir em 2026: juros altos, eleições e cautela redobrada no radar do investidor

03/01/2026 Alexandre Gois
Arquivo pessoal

O ano de 2026 começa sob o signo da incerteza. Juros elevados, eleições majoritárias no horizonte, ruído fiscal persistente e um mercado cada vez mais dominado por tecnologia e inteligência artificial formam o pano de fundo das decisões de investimento do brasileiro. Para entender o que tende a funcionar – e o que exige mais cuidado – em matéria de investimentos pessoais, a reportagem ouviu três assessorias com leituras distintas, porém convergentes em um ponto central: cautela, liquidez e diversificação serão palavras-chave do ano.

Para Marcos Boechat Goede, consultor da Wiser, escritório do BTG Pactual, 2026 ainda será um ano favorável à renda fixa, mas com um investidor mais atento à qualidade do emissor. Ele lembra que episódios recentes no mercado fizeram com que o foco deixasse de ser apenas a taxa oferecida. “Os CDBs seguem atrativos, mas o investidor precisa olhar mais para quem está emitindo do que para o percentual prometido. Com a redução das reservas do FGC, o risco precisa ser melhor avaliado”, afirma.

Nesse cenário, Boechat vê mais sentido em CDBs pós-fixados, de liquidez diária, especialmente com a Selic em torno de 15% ao ano. “Ter caixa e ativos líquidos será essencial em um ano de alta volatilidade, marcado por eleições. Eu evitaria prazos muito longos, ficando entre um e, no máximo, dois anos”, diz. Títulos prefixados ou atrelados à inflação podem entrar na carteira, mas de forma pontual e em menor proporção.

SEGURANÇA

O Tesouro Selic, segundo ele, continua sendo o principal porto seguro do investidor conservador, inclusive para o capital estrangeiro atraído pelos juros brasileiros. A atratividade pode diminuir caso os cortes de juros avancem ao longo do ano, mas, ainda assim, o ativo segue oferecendo liquidez, proteção e retorno real relevante. Já a poupança, na visão do consultor, não encontra mais justificativa econômica. “Ela rende menos que o mínimo necessário e, em alguns períodos, perde até para a inflação. É uma escolha cultural, não racional”, resume.

Na renda variável, Boechat projeta um ano desafiador. Após um 2025 marcado pela entrada de capital estrangeiro e recordes na Bolsa, 2026 deve trazer mais volatilidade, impulsionada pelo cenário fiscal e pelo calendário eleitoral. A possível queda dos juros pode favorecer os ativos brasileiros, mas a exposição ao risco local, segundo ele, precisa ser calculada com cuidado.

DIVERSIFICAÇÃO

Fernando Mello, sócio-fundador da Alef Investimentos, também enxerga 2026 como um ano ainda dominado pela renda fixa pós-fixada. A expectativa, segundo ele, é de que os cortes na Selic comecem apenas a partir de março, levando a taxa para um patamar ainda acima de 12% ao fim do ano. “Isso mantém o ambiente favorável ao investidor conservador”, afirma.

Para Mello, mais do que escolher entre renda fixa ou variável, o foco deve estar na diversificação. “Independentemente do cenário, diversificar reduz riscos e melhora a eficiência da carteira”, diz. O comportamento do investidor brasileiro, na avaliação dele, pouco muda na prática, mas o ambiente será de forte volatilidade, alimentado por desequilíbrios fiscais, eleições, feriados e até grandes eventos esportivos.

A busca por previsibilidade, segundo Mello, segue sendo um desejo constante, ainda que difícil de alcançar no Brasil. Nesse contexto, ativos como títulos públicos e investimentos atrelados a metais preciosos, como ouro e prata, tendem a ganhar espaço nas carteiras mais defensivas.

CRIPTOMOEDAS

No campo das criptomoedas, o sócio da Alef adota um tom cauteloso. Após máximas históricas em 2025 e uma correção significativa, o mercado cripto divide opiniões. “Há expectativa de valorização em 2026, mas o risco é elevado”, afirma. Ele alerta para a ausência de lastro, a dificuldade de acompanhamento e o risco regulatório, além de fraudes e golpes. Em carteiras maduras, Mello limita a exposição a até 5% do patrimônio. Em patrimônios em formação, a recomendação é ficar de fora.

Rhuan Leite, educador financeiro e sócio da Santé Investimentos, chama atenção para o avanço da inteligência artificial no mercado financeiro. Segundo ele, as grandes instituições já se beneficiam amplamente dessa tecnologia, mas o investidor pessoa física também pode tirar proveito, desde que busque conhecimento e saiba usar as ferramentas disponíveis. “A informação e as estratégias estarão cada vez mais acessíveis. Cabe ao investidor se adaptar”, afirma.

EVOLUÇÃO
Leite é categórico ao descartar a poupança. Para quem está começando, ele indica o Tesouro Selic como porta de entrada natural, com migração gradual para CDBs e outros produtos conforme o perfil e os objetivos evoluem.

Ele destaca que se evite fórmulas prontas e reforça a importância da diversificação para todos os perfis, do conservador ao arrojado.
Seu principal conselho para 2026 é cautela. “Será um ano potencialmente turbulento. Quem não tem conhecimento deve buscar aprender ou contar com ajuda profissional”, diz. Ele também alerta para o aumento de promessas financeiras enganosas, muitas vezes disfarçadas com termos como inteligência artificial e criptomoedas. “Rentabilidade alta com risco baixo é sempre um sinal de alerta”, afirma.

OPINIÕES CONVERGENTES

Em um ano marcado por juros elevados, tecnologia avançada e incerteza política, os especialistas concordam em um ponto essencial: em 2026, mais do que buscar ganhos extraordinários, o investidor pessoa física precisará proteger o capital, entender os riscos e desconfiar de atalhos fáceis.