Cena

Exposição na Pinacoteca celebra 50 anos de carreira de Klaus Mitteldorf

19/12/2025 Isabela Marangoni
Klaus Mitteldorf

A Pinacoteca Benedicto Calixto apresenta a exposição Klaus Mitteldorf MMXXV – Arte no campo expandido da fotografia, que celebra os 50 anos de trajetória do artista e reafirma a fotografia como uma linguagem que ultrapassa o registro para se afirmar como pensamento, gesto e presença no mundo. Em cartaz até 25 de janeiro, a mostra integra a programação da 3ª edição do Arte na Pinacoteca e reúne obras organizadas em quatro núcleos — Mitologia, Minha Casa à Beira-Mar, Um Sonho Japonês e Identidades — propondo uma leitura sensível e expandida da imagem fotográfica.

A obra de Klaus ocupa um território no qual a fotografia deixa de ser apenas documento para se tornar construção poética e experiência sensorial. Em suas imagens convivem o rigor formal e a vertigem do invisível: a câmera não atua apenas como instrumento técnico, mas como extensão da memória, da imaginação e da vivência do artista.

Ao completar cinco décadas de carreira, Klaus apresenta uma exposição que funciona como retrato do presente — não apenas de sua obra, mas de quem ele é hoje. “Cinquenta anos é quase uma vida inteira”, afirma. “Meu trabalho é totalmente ligado àquilo que eu vivo. Todas as minhas ansiedades, desejos, problemas e fantasias eu coloco nele. É quase uma terapia”.

Ao observar o conjunto, o artista identifica uma transformação contínua, guiada tanto pelas experiências pessoais quanto pelas experimentações formais. Das primeiras fotografias, ainda na década de 1970, aos trabalhos mais recentes, a mudança não é apenas técnica, mas existencial. “Conforme vou vivendo, vou experimentando novas técnicas e novas maneiras de fotografar o mundo. Tudo o que vivi foi se acumulando. O trabalho que mostro hoje carrega muitas informações dessa evolução na vida e na fotografia”, explica.

Essa trajetória é marcada pela recusa da fotografia como simples registro. Desde o início, Klaus sentiu a necessidade de ir além do documentar. “Não basta simplesmente ver alguma coisa. Eu só fico feliz se conseguir transformar aquilo e mostrar do jeito que eu gostaria”, diz. Para ele, a imagem nasce de um impulso interno, da vontade de recriar o mundo e propor novas formas de percepção. “É a minha maneira de ver o mundo. Mostrar que a gente pode sonhar diferente e ver as coisas de outra forma”.

O diálogo com outras linguagens — como cinema, performance e encenação — é central em seu processo criativo. Influenciado pela linguagem cinematográfica, o artista afirma que a imagem estática muitas vezes não é suficiente. “Gosto de encenar, de dirigir pessoas, de ir além da imagem parada”. Essa inquietação o levou também ao cinema de longa-metragem e segue como motor de sua produção atual, em um movimento constante de expansão.

A exposição se organiza em quatro núcleos que funcionam como capítulos de um mesmo percurso. Parte dos trabalhos começou a ser desenvolvida antes da pandemia, por volta de 2019, e ganhou novos contornos durante o período de isolamento. “A pandemia acabou influenciando diretamente essa divisão. São trabalhos de momentos diferentes, que vão de 2019 até 2025”, observa.

Ao rearticular cinco décadas de criação, a mostra revela um artista em plena maturidade, atento às relações entre presença, performance e autorrepresentação. Cada núcleo funciona como uma constelação em que o visível se torna superfície de introspecção — vestígios de mitologias pessoais, afetos, ficções e reinvenções.

Um dos eixos mais contundentes surge nas obras The Painter e The Assistant, que condensam o olhar crítico e irônico de Klaus sobre o papel do artista. A figura arquetípica do pintor, símbolo clássico da criação, aparece filtrada por um gesto anacrônico e performático, no qual a solenidade se dissolve em teatralidade e jogo. O humor silencioso dessas imagens dialoga com o cinema de Jacques Tati, evocando o atrito entre tradição e modernidade, entre o gesto humano e a engrenagem do contemporâneo.

Nesse território de tensão, a fotografia se transforma em autorretrato expandido — uma reflexão crítica sobre o lugar do artista no presente. As obras da Sala 1 aprofundam essa investigação ao transitar entre autorrepresentação e encenação: o fotógrafo torna-se personagem de si mesmo; o espaço, palco; e a câmera, espelho crítico.

O autorretrato surge como eixo conceitual fundamental, ainda que não restrito à imagem do próprio rosto. “Todo trabalho feito a partir do que a gente sente e vive é, de certa forma, um autorretrato”, reflete. “Meu trabalho, muitas vezes, é um autorretrato da minha vida”.

Embora muitos identifiquem humor em suas imagens, Klaus prefere falar em provocação e esperança. “Gosto de cutucar as pessoas, de mostrar o mundo de outras maneiras”. Mais do que ironia, seu interesse está em criar imagens que apontem para um mundo possível. “Um mundo bom, um mundo para cima, onde a gente seja livre para expressar aquilo que quer”.

Depois de 50 anos de produção ininterrupta, a motivação permanece intacta — quase vital. “Não consigo viver sem a fotografia. Ela me mantém vivo e inspirado”. Expor na Pinacoteca Benedicto Calixto também carrega um significado especial. O artista destaca o diálogo entre o espaço histórico e a obra contemporânea. “Esse contraste do antigo com o branco do espaço, com a cor e a contemporaneidade do meu trabalho, ficou perfeito”.

Ao abrir a mostra ao público, a expectativa é de encontro e deslocamento: que o visitante não apenas veja as imagens, mas seja provocado por elas — e, quem sabe, saia com a sensação de que também pode olhar o mundo de outro jeito.