Economia

A dupla jornada que complementa a renda e aquece o mercado imobiliário

06/12/2025 Mariana Nerome
Fernando Yokota

A cena se repete em imobiliárias, grupos de WhatsApp e redes sociais: professores, motoristas de aplicativo, bancários, servidores públicos e até jornalistas apresentam imóveis, negociam valores e fecham contratos. O mercado imobiliário da Baixada Santista vive um momento de expansão que atrai pessoas das mais variadas profissões para a corretagem. A promessa de ganhos atrativos e a flexibilidade de horários transformam a intermediação imobiliária em uma opção cada vez mais viável para quem busca complementar a renda ou até mesmo construir uma nova carreira.

De acordo com o presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis-SP (CRECI-SP), José Augusto Viana Neto, os dados estaduais comprovam a tendência: em 2022, São Paulo tinha 169 mil corretores inscritos ativos. O número saltou para 181.249 em 2023, chegou a 193 mil em 2024 e alcançou 204.200 profissionais até outubro deste ano.

Contrariando a percepção de que o mercado estaria saturado, o presidente da entidade defende que o país ainda carece de profissionais. “O número de corretores no Brasil atualmente é muito pequeno diante da necessidade do mercado”, afirma.

Na Baixada Santista, a onda de novos profissionais encontra um terreno fértil. A região combina valorização imobiliária acelerada com transformações no modo de trabalho e vida das pessoas.

EM FAMÍLIA

É nesse contexto que histórias como a de Simone Maiorano Braga se multiplicam.
Simone, funcionária pública, obteve o registro no CRECI há cerca de três anos. A decisão partiu da necessidade de encontrar uma fonte de renda extra que não atrapalhasse sua rotina. “Ele me proporcionou justamente isso, porque eu posso trabalhar nos horários que eu determinar na minha agenda”, conta.

A solução encontrada por Simone ilustra uma das principais vantagens da corretagem para quem mantém outra profissão: a flexibilidade. Ela atua à noite, em parceria com a filha.

Quando precisa mostrar imóveis em horário comercial, a filha assume. A estratégia familiar permite que ambas dividam as tarefas e as comissões.

Embora sua função pública não tenha relação direta com imóveis, a experiência em atendimento ao público se revela útil na nova atividade. “No dia a dia, eu já lido com pessoas também, né? E isso também facilita um pouco o desenvolver”, observa Simone.

“Se você tiver uma disciplina e souber direcionar o que você ganha, se você tiver dividido direitinho, você tem dinheiro para quando você também não vender. Isso é uma disciplina, é um estudo”, ensina.

NOVOS CAMINHOS

Com 30 anos de experiência na comunicação da construção civil, Fábio Figueiredo decidiu formalizar um conhecimento que já possuía na prática. Formado em jornalismo e relações públicas, teve como um dos primeiros clientes a Associação dos Construtores da Baixada Santista (ASSECOB).

Atualmente, também assessora o Serviço Social da Construção Civil (SECONCI), braço de saúde da construção civil, e o Sindicato das Empresas de Compra, Venda e Administração de Imóveis (SECOVI), entidade das incorporadoras em nível estadual. “Minha relação com a construção é muito extensa. Tenho vários conhecidos e uma relação com empresários do setor”, resume. Apesar da familiaridade com o mercado imobiliário, Figueiredo sentia falta de formação específica.

“Eu cheguei num momento que achava que precisava voltar a estudar de alguma forma. Achei que estava sentindo falta disso”, relata. A escolha pelo curso de corretor surgiu naturalmente. “Por todo esse envolvimento com o setor, eu falei: vou fazer o curso de corretor e avaliador de imóveis porque é uma coisa que já está no meu dia a dia”, explica.

Figueiredo cursou dois semestres na Escola Técnica Estadual (ETEC), instituição que oferece o curso gratuitamente após processo seletivo.

A comunicação permanece como atividade principal, mas Figueiredo mantém a corretagem ativa. Criou um perfil no Instagram, estabeleceu parcerias. “Tenho algumas parcerias no segmento até para captar alguns imóveis, mas não é minha atividade principal. Ela está ativa e posso trabalhar nisso a qualquer momento”, esclarece.

A decisão de manter duas profissões reflete uma preocupação com as transformações do mercado de trabalho. “Com todas as mudanças que a gente vem vivendo, de inteligência artificial, de tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, eu falei: ter uma outra atividade, uma outra profissão, me agrega um outro caminho a qualquer momento”, pondera.

GENTE

Deise Almeida, 55 anos, representa um terceiro perfil. Técnica em edificações, ela se credenciou como corretora há dois anos. Sua trajetória profissional passou por funções como secretária e coordenadora de vendas, sempre em áreas que envolviam contato com pessoas e negociação. “Já atuei como secretária, coordenadora de vendas, áreas que sempre me permitiram lidar com pessoas, entender necessidades e buscar soluções”, resume.

A formação técnica em edificações surgiu como oportunidade de agregar conhecimento específico à experiência comercial que já possuía. “Quando me formei como técnica em edificações, percebi que poderia unir esse conhecimento técnico à atuação comercial. A motivação ia além do aspecto financeiro: Deise queria trabalhar diretamente com imóveis, oferecer orientação segura aos clientes e construir sua própria trajetória no mercado. Hoje, ela atua nas duas áreas, mas o foco principal é a corretagem e avaliação de imóveis.

CRESCIMENTO NATURAL

“O setor imobiliário nos últimos anos, aqui na Baixada, cresceu absurdamente. Não só em Santos, mas em Praia Grande principalmente. Na Riviera também cresceu bastante”, diz Fábio. A pandemia funcionou como divisor de águas. “Muitas pessoas acabaram buscando abrigo, entre aspas, na Baixada, naquele primeiro momento da pandemia, por ser uma área mais tranquila e uma qualidade de vida melhor. E muita genre acabou ficando”, comenta Figueiredo.