Cena

Pesado faz do grafite a arte-símbolo da cultura santista

29/11/2025 Da Redação
Claudio Vitor Vaz

Se os olhos são a janela da alma, Edgard de Souza Vieira (o Pesado) cria verdadeiros portais nos muros, paredes e empenas de prédios de Santos, São Paulo e outras cidades pelo mundo.

Aos 47 anos, ele vem desenvolvendo sua arte de rua por meio do grafite (graffiti), em diferentes superfícies, em que pinta personagens importantes da cultura pop, com ênfase nos olhos dos retratados.

Em Santos, o olhar inconfundível do roqueiro e skatista Chorão (vocalista e letrista da banda Charlie Brown Jr.) “acompanha” os frequentadores do Parque Roberto Mário Santini (Emissário Submarino), mais conhecido como Quebra-mar.

Assinado como “a FASE!”, o grafite ilustra a lateral da pista de skate, inaugurada em 2023. Da mesma autoria, próximo dali, na torre de observação, está o retrato de outra personalidade local, o Bigode, pai do surfista e recordista brasileiro de surfe Picuruta Salazar, que comanda a escolinha de surfe ao lado.

Pesado é skatista e criador da marca “a FASE!”, em 2006, que já foi coletivo de arte e loja de produtos relacionados ao esporte em Santos. Hoje, é um dos nomes da Cidade que mais se projeta internacionalmente com sua arte. Ano que vem, volta para uma nova temporada em Barcelona, cidade catalã que o acolheu por meio da cultura do skate e do grafite.

Neto de portugueses da Ilha da Madeira, e pai de Javier, de 24 anos, nascido em Santos, Pesado costuma passar longas temporadas na Europa, entre Portugal e Espanha, mas é fiel à sua terra natal, para onde precisa sempre voltar.

Mesmo durante o curso superior de Fotografia, iniciado em 2003, na Escola Panamericana de Arte e Design, de São Paulo, ele não conseguia passar a semana toda longe: “Aluguei um apartamento lá, para não ficar subindo e descendo, mas acabava a aula, na segunda-feira, eu descia, precisava da praia”, lembra.

Antes da faculdade, foi o gosto pelo proibido e pelos diferentes formatos de letras que atraiu Pesado para a pichação, que, por sua vez, o levou ao grafite: “A pichação foi a primeira arte pela qual eu me encantei, pensava ‘como esse cara escreve isso em todo lugar?’. Em Santos, teve uma molecada que começou uma tipografia diferente da de São Paulo. Eu tinha uns 12 anos quando comecei, mas pichei por muito pouco tempo, eu gostava mesmo era de fazer letra, qualquer tipo de letra me atraía”.

Afinado com as expressões da rua, Pesado se aproximou do skate, aprendeu a andar e se identificou com o universo em torno do esporte. Entre 2001 e 2002, foi morar em Portugal, onde conheceu as raízes de sua família. Era para ficar lá por apenas três meses, mas permaneceu por um ano, até seu filho nascer e voltar a Santos.

De volta ao Brasil, em 2003, escolheu estudar fotografia para registrar as manobras radicais dos amigos skatistas, mas, no final do curso, mudou o foco para o design gráfico, onde podia desenhar e aprender tipografia.

Munido de tintas e canetas especiais, começou a customizar objetos como tênis, abajures e vinis (fazia relógios de vinil) para uma loja em São Paulo, e vendia bem. Com muitos amigos do design, decidiu criar o coletivo a Fase!, que reuniu cerca de dez artistas, virou marca e loja em Santos, com acessórios e itens de moda street wear.

“Criei a Fase! em 2006, era uma expressão que a galera do skate usava quando estava tudo bem, diferente do ‘que fase’, quando algo vai mal. Como eu também tocava na noite e conhecia bastante gente, sobretudo de arte urbana, o coletivo foi uma fusão de várias áreas, de gente de são Paulo e de Santos”, conta.

No mesmo ano, Pesado trocou as canetas pelas latas de spray, e começou a grafitar e trabalhar como DJ em baladas da Cidade, como uma bem famosa, promovida por Renato Pelado, ex-baterista do Charlie Brown Jr. Foi por causa da discotecagem que Edgard assumiu o nome artístico, Pesado Dub, sendo o dub um estilo de música eletrônica, subgênero do reggae.

Foi nessa época que o artista começou a pintar retratos de artistas famosos, com ênfase nos olhos, por meio do grafite e de murais. “Eu mudo de estilo direto, quando fazia letra, fazia de várias maneiras, mas sempre admirei quem sabia fazer rosto, sobretudo os olhos, que eu nunca soube fazer, mas quando aprendi, achei lindo!”, ressalta, mas avisa: “Daqui a pouco, vou mudar meu estilo de novo”.

É recente a produção de Pesado sobre as telas, tem cerca de três anos. “Comecei a ver vários murais meus sendo apagados, pois o grafite é efêmero, se você cuidar muito, passar verniz, pode durar uns seis anos. Tela não, quando eu morrer ainda vai estar aí.”

Ele pinta telas de grandes dimensões, para as quais transpõe a identidade de seus grafites, em que “ruídos” como escorridos de tinta e tags (assinaturas no grafite) se tornaram um estilo. “Não sei se tem nome essa técnica, mas sei que não fui eu que criei. Fiz esse estilo meio rajado, meio sujo, em 2020, e venho aprimorando essa bagunça desde então”, brinca ele, que consegue transmitir movimento e emoção em retratos perfeitos, criados com manchas de cor.

A relação de Pesado com Barcelona veio logo depois de retornar a Portugal, em 2015, quando finalmente viajou à Espanha e conheceu a cidade catalã, considerada a Meca europeia do skate e do grafite. Gostou tanto que, de volta ao Brasil, fechou a loja e, em 2016, se mudou para lá, onde foi trabalhar como recepcionista num hotel.

“Barcelona é bem parecida com Santos, só que mais desenvolvida, tem quase a mesma extensão e dá para fazer tudo de bicicleta. Levou uns quatro anos até eu começar a desenvolver o grafite lá, fazendo murais para comércios. Mas, na pandemia, precisei voltar ao Brasil”, lembra o artista, que, em 2026, vai fechar temporariamente a sua casa-ateliê no bairro do Campo Grande, para embarcar para a Espanha, agora como artista reconhecido.

Reportagem realizada em 19 de junho de 2025. @afasesantos.

Esta reportagem, parceria do Jornal a Orla com os jornalistas Carlota Cafiero e Claudio Vitor Vaz, faz parte do projeto Por Dentro do Ateliê II, contemplado na 11ª edição do Facult. A cada 15 dias, o Jornal da Orla está publicando um dos 10 registros produzidos pela Carlota e pelo Claudio. A exposição coletiva dos 10 artistas ficou em cartaz até a última sexta-feira, dia 28, na Galeria Braz Cubas, no Centro de Cultura Patrícia Galvão.