Cena

“Rumos 60” traz resistência, memória e reinvenção do TEP

27/11/2025 Isabela Marangoni
Arquivo Pessoal

O Teatro Experimental de Pesquisas (TEP), da Universidade Santa Cecília, firma mais um capítulo de sua trajetória com o lançamento do curta-metragem “Rumos 60 – Uma Viagem Audiovisual”, que nasce como gesto de resistência em plena pandemia. A estreia acontece hoje (27), às 19 horas, no Museu da Imagem e do Som de Santos (MISS), com entrada gratuita.

Com roteiro e direção de Gilson de Melo Barros, o projeto tem origem em 2019, quando o TEP realizou uma audição para a montagem “Que Mistérios Tem Clarice”, em homenagem ao centenário de Clarice Lispector. “Exatamente uma semana depois dessa audição, o elenco escolhido… veio a pandemia e o lockdown no mundo inteiro”, lembra o diretor.

A ruptura levou Gilson e o grupo a transformar a paralisia em criação. “Dentro daquele estado de solidão começamos a nos corresponder por mensagens e redes sociais. Abrimos o Fescete online em 2019. Passamos pela dor acreditando no futuro. O que fica frisado não é a desesperança, mas a alternativa, a busca por uma saída. Essa é a mensagem da arte”.

Arte na pandemia

Com os palcos fechados, o TEP encontrou no audiovisual uma via para continuar produzindo. Atuando de suas próprias casas, os atores enviavam gravações para Gilson e para o editor Tales Ordakji, parceiro na montagem dos trabalhos. O primeiro experimento surpreendeu. “Mandamos para um festival online e ganhamos com ‘Prato Azul Pombinho’, baseado no texto de Cora Coralina. Isso nos incentivou muito”.

Vieram então ‘Ciranda de Maria’, ‘Alzira Rufino, eu mulher negra’ e outras produções remotas. Ao todo, sete obras integram “Rumos 60”, registrando a evolução técnica e estética do grupo. O título remete aos quase 60 anos do TEP. “O grupo vai fazer 57 anos, e a gente pretende muito mais. É um rumo, uma viagem audiovisual”, diz Gilson.

O curta trata, sobretudo, da capacidade de seguir adiante. “É sobre a atitude de buscar caminhos, de desafogar da tristeza. A arte é redentora, nos revigora”, afirma o diretor. Um dos maiores desafios, conta, foi levar os atores à “era da selfie”. “Aprender a olhar o próprio rosto, a lidar com enquadramento, luz, foco. Tenho muito orgulho do grupo ter se entregado. A fotografia é individual; cada um soube buscar a própria luz”.

Homenagem e resistência

O filme presta ainda uma homenagem ao ator Zemanuel Piñero, integrante da primeira geração do TEP e amigo de Gilson desde os tempos do colégio. “A vida nos uniu por mais de 60 anos. Ele é a primeira imagem que aparece no vídeo. Este trabalho é dedicado a ele”.

Fundado em 1969, em plena ditadura militar, o TEP se consolidou como grupo politicamente engajado e defensor dos direitos humanos. Atravessou períodos marcantes sempre mantendo diálogo com o presente. Gilson assumiu a direção em 1980 e está à frente até hoje. “Sou o guardião do grupo”.

Pelas oficinas e montagens do TEP passaram diferentes gerações, diretores como Marco Antônio Rodrigues e Nanci Alonso — figura essencial na criação do Gapa Baixada Santista — e atores que se tornaram referência no teatro regional. Hoje, o elenco reúne integrantes veteranos e uma nova leva que prepara a peça Flotilha, sobre temas contemporâneos ligados ao planeta e às opressões sociais.

Lançamento no MISS

A escolha do MISS para a estreia é simbólica. “O MISS é praticamente o berço do audiovisual santista. Tem uma tela boa, um público ácido. Para a gente, é uma honra estar ali”, afirma Gilson.

Para o público, ele promete emoção e memória. “É perceber essa trajetória de 2019 a 2025, como a linguagem audiovisual foi se aprimorando. Hoje, quem vê um trabalho nosso reconhece a assinatura de Gilson e Tales”. Será a primeira vez que todos os audiovisuais do período serão apresentados juntos.

Próximos passos

A circulação de “Rumos 60” continua em 2026. O TEP prepara uma mostra no Lanterna Mágica e possivelmente no Cinema de Arte, além de inscrições em festivais estaduais e nacionais. “Ficamos orgulhosos quando cada trabalho confirma a nossa trajetória”, resume.