Cena

Escritoras santistas fazem parte do Guia do PNLD 2024

26/11/2025 Isabela Marangoni
Reprodução/Pexels

O Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) para a Educação de Jovens e Adultos (EJA) exerce um papel fundamental na promoção de uma educação inclusiva e de qualidade, especialmente para quem não pôde concluir os estudos na idade regular. Nesta semana, foi publicado o Guia do PNLD 2024, documento que orientará, entre 2026 e 2029, as escolhas das escolas de todo o país. Ele é resultado de um processo iniciado em 2023, quando especialistas analisaram 80 obras inscritas. Entre as selecionadas, quatro escritoras de Santos se destacam: Susana Ventura, Vanessa Ratton, Chris Ritchie e Helena Gomes.

Nota máxima

Para Chris Ritchie, a seleção de sua obra ‘Jogos da Verdade’ representa um dos momentos mais marcantes da carreira. O livro recebeu nota máxima em todos os critérios avaliados.

O caminho até o resultado, porém, é extenso. “O livro foi lançado em 2022; a editora inscreveu em 2023, e aí começa uma maratona. Primeiro vem a habilitação, depois uma análise de mais de 40 itens. É tudo muito profundo”, explica.

Reunindo poemas escritos ainda na adolescência, o livro ganhou forma graças ao olhar da editora Marcia Paganini e da parceria com a ilustradora. A estética em cores vibrantes e traços que remetem ao giz cria um diálogo entre artes plásticas, literatura e referências clássicas — influências que acompanham a autora desde a infância. “Quero que o leitor sinta prazer estético e perceba que também pode criar”, afirma.

Para Chris, o PNLD desempenha um papel estratégico ao valorizar a produção literária nacional. “O programa leva às escolas obras de qualidade e reconhece autores vivos. Isso transforma o cenário literário”.

Da escrita ao pertencimento

A jornalista e escritora Vanessa Ratton, autora de ‘Uma Menina Detetive’, recebeu a notícia da aprovação com emoção. “Já são sete obras aprovadas. Realizei um sonho de infância”.

Formada em jornalismo, Vanessa encontrou no teatro seu primeiro campo artístico. A escrita se intensificou após o nascimento dos filhos e, anos depois, aproximou-a de sua ancestralidade. “Meu pai é guarani, da aldeia Rio Silveiras. Conhecer escritoras indígenas e trabalhar com justiça restaurativa me levou à minha retomada indígena”.

Hoje, a autora escreve literatura indígena, mantém vínculos com aldeias e coordena, em Santos, o projeto Porto de Literatura, que já distribuiu 850 livros em 14 escolas, sempre priorizando autores locais.

‘Uma Menina Detetive’ surgiu do desejo de subverter o protagonismo masculino típico de narrativas como Sherlock Holmes. Na história, o bisneto do detetive busca jovens talentos ao redor do mundo e encontra Marina, uma brasileira que embarca em uma aventura entre a Europa e a Amazônia — onde surgem elementos da cultura Sateré-Mawé. O texto foi refinado coletivamente, com leituras críticas de estudantes.

Vanessa reforça a importância das políticas públicas. “O MEC é o maior comprador de livros do país. Sem o PNLD, o acesso seria restrito a quem tem poder econômico”. Ela defende, também, acervos mais diversos, com autores negros, indígenas e pessoas com deficiência.

Quatro obras contempladas

Susana Ventura celebra a presença de quatro livros no guia — ‘Sete Contos que Nunca Me Contaram’, ‘Um Pai Muito Sábio e Outros Contos Africanos’, ‘Contos de Muitos Cantos’ e ‘O Caderno da Vó Clara’, este último vencedor do Prêmio Jabuti.

Para ela, escrever para crianças e jovens exige rigor e delicadeza. “Não existe ‘escrever mais fácil’. Existe cuidado. É preciso acolher, elaborar questões, acompanhar o desenvolvimento de cada leitor”.

A autora destaca ainda o papel do PNLD na circulação da literatura infantil e juvenil. “É a primeira galeria de arte que chega à criança, pelas ilustrações. E movimenta toda a cadeia do livro”.

Monstros, aventura e ciência

Coautora de Amonstragem, escrito com Rosana Rios, Helena Gomes também comemorou a inclusão no guia. “É sempre uma alegria ver um livro ganhar o mundo”.

O projeto começou como um livro de curiosidades sobre monstros, mas ganhou nova direção após sugestão da editora: transformar em narrativa ficcional. Assim surgiu Maju, protagonista que embarca com uma equipe de cientistas para coletar “amostras de monstros”.

Para Helena, os desafios do mercado editorial brasileiro tornam o PNLD ainda mais relevante. “Não estamos em um país leitor. Há cidades sem livrarias. Muitas famílias não têm livros em casa”. Por isso, afirma, o programa é essencial. “Movimenta toda a cadeia do livro e coloca a escola como criadora do hábito da leitura”.

Impacto coletivo

Com trajetórias distintas, as quatro escritoras santistas convergem em um ponto: o PNLD é uma das principais políticas públicas culturais e educacionais do país, responsável por democratizar o acesso ao livro, fortalecer o mercado editorial e formar novos leitores.

De Santos para o Brasil, suas obras agora chegam a bibliotecas e salas de aula de milhares de estudantes — muitos deles, talvez, encontrando ali seu primeiro livro.