
O produtor musical Gabriel Panza transformou um encontro casual em um projeto de impacto social e artístico que une sensibilidade, inclusão e valorização da arte: o Vozes da Rua. A iniciativa nasceu com o propósito de descobrir, produzir e gravar artistas que batalham por seus sonhos e encontram na rua o seu palco — seja em luais, praças ou nas areias da praia. O projeto oferece a esses músicos uma estrutura profissional capaz de trans formar sons e histórias em produções de estúdio.
A semente foi plantada em 2018, quando um jovem poeta de rua bateu à porta do estúdio Wave, no Gonzaga, pedindo uma chance para gravar suas músicas. “Aquele encontro me marcou profundamente. Percebi que havia muitos talentos nas ruas esperando uma oportunidade para mostrar seu trabalho”, relembra Panza.
O jovem vendia balas no semáforo e não tinha se quer WhatsApp — apenas um perfil no Instagram, que logo seria excluído. Mesmo sem conseguir manter contato, ele inspirou o produtor a criar um projeto que desse visibilidade a artistas que vi vem da arte nas ruas. “Fiz o projeto pra tentar fazer alguma coisa por ele, mas nunca mais soube desse menino. Mesmo assim, quis seguir adiante”, afirma.
ENTRE O ASFALTO E O ESTÚDIO
O Vozes da Rua amadureceu ao longo dos anos, passando por editais como o ProAC e, mais recentemente, pela Lei Paulo Gustavo, que viabilizou a gravação de quatro artistas de diferentes estilos musicais — do gospel ao rap, passando pelo pop rock e outras sonoridades. “Meu sonho era gravar dez artistas por edição e criar uma playlist que fosse crescendo. Com o recurso que tivemos, consegui fazer quatro — mas são quatro histórias muito verdadeiras”, diz Panza.
A curadoria, feita de forma afetiva e investigativa, aproximou o produtor de músicos e poetas encontrados em praças, estações e esquinas. O projeto parte de um princípio simples, mas poderoso: reconhecer o artista de rua como profissional. “As pessoas confundem o artista com alguém que está pedindo algo. Não percebem que ele está oferecendo tudo o que tem de melhor”, reflete.
O primeiro artista selecionado foi Ck Lex, ator e cantor, descoberto por acaso. “Eu estava saindo da academia quando ele tentou me vender uma salada de frutas. O jeito inquieto dele me chamou atenção, porque para oferecer o produto ele soltou uma rima. Só quem enfrenta as adversidades da rua sabe o valor da autenticidade. Quando percebi que era o filho da dona do salão aqui do prédio, falei: ‘Acho que posso fazer algo por você’. Dois dias de pois, ele estava no estúdio”, conta o produtor.
A escrita musical entrou na vida de Ck Lex em 2020. “No começo eu não escrevia no formato de música. Sempre fiz muitas poesias sobre o dia a dia”, conta. Com o tempo, ele foi lapidando suas composições até que Panza escolheu a faixa que também era sua preferi da. “Gravamos ‘Sol Nascente’ juntos e foi um processo muito verdadeiro”, lembra.
Para Panza, essa troca é a essência da produção. “Nosso processo criativo é de muito respeito. O ego e a vaidade ficam do lado de fora. Eu afino qualquer voz, mas não coloco emoção em nenhuma. A emoção vem da verdade”.
CONTRASTES DA RUA
A diversidade musical é um dos pilares do projeto. “A rua é um reflexo de contrastes. Ela é liberdade para uns e prisão para outros. Eu quis trazer esse contraste para dentro do projeto”, explica Panza.
Entre os artistas grava dos estão: Felipe Pacheco, cantor gospel que toca violão na Cracolândia para res gatar vidas; Athayde Muñez, rapper que transforma a dureza da realidade em versos potentes; Guilherme Lobbo, músico de canções leves e histórias cotidianas; e Ck Lex, que mistura pop, rap e trap em composições sobre fé e resistência. “O Felipe me mostrou o poder da música de alcançar onde o diálogo não chega. O Athayde trouxe o peso e a urgência das ruas, com uma sonoridade que mistura Rage Against the Machine e rap. E o Guilherme representa o cara que dá a cara a tapa todos os dias, tocando no metrô ou nas praças”, resume o produtor.
LEGADO E CONTINUIDADE
As quatro faixas do projeto estão reunidas na playlist “Vozes da Rua”, disponível nas plataformas digitais. “Elas estão lá como um legado cultural eterno. Os artistas têm acesso aos royalties e à própria música para sempre. É um laço que permanece”, diz Panza.
Mais do que gravações, o projeto oferece formação e suporte profissional, ajudando os músicos a entenderem o mercado, registrar obras e buscar novas oportunidades. “A ideia é que entendam que a rua pode ser um palco, mas não precisa ser o único. Quero dar ferramentas para que sigam em frente, façam shows, entrem em festivais, sonhem maior”, resume.
Ck Lex reforça o sentimento. “Desde criança eu escrevo, mas só comecei a acreditar em mim depois de gravar minhas primeiras letras. Hoje respeito o processo — cada música é uma evolução”, diz o artista, que planeja lançar um álbum autoral em breve. Tudo o que eu tenho é fé e trabalho”.
Para ele, esse é o verdadeiro espírito do Vozes da Rua. “O artista de rua já é um artista só por estar na rua. É alguém que resiste, que vive a arte fora do conforto. Nosso papel é dar voz e suporte para que eles possam ir além”.
Com planos de se inscrever em novos editais e ampliar o número de artistas, o projeto segue crescendo. “Imagina conseguir verba pra gravar dez, quinze artistas? Seria um sonho. Mas, mesmo com pouco, já começamos algo bonito. É só o começo de muita coisa boa que ainda vem por aí”, conclui Panza.
Além das gravações, o Vozes da Rua conta com divulgação digital e audiovisual, retratando o processo criativo e a trajetória de cada artista, no Instagram @projeto_vozesdarua. A meta é que a iniciativa se consolide como uma plataforma contínua de descoberta e valorização da música in dependente, conectando o público a novas vozes autênticas da cena brasileira.


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