
Andrea Mesquita fala sobre a importância do diagnóstico precoce do câncer de mama
Ser uma atleta de altíssimo nível, levando uma vida regrada e saudável, não impediu que Andrea Mesquita, carateca santista multicampeã, sofresse com o mal que já foi diagnosticado em mais de 73 mil mulheres (2025) brasileiras: o câncer de mama.
Criada no tatame, Andrea descobriu o câncer em 2015, após uma bateria de exames em que, em um primeiro momento, o médico não detectou nada. “Eu fiz a bateria de exames após ver um comercial da campanha contra o câncer, no final de 2014. Na época pensei: Estou pagando o plano de saúde há um tempão, vou marcar. Em 2015, fiz os exames com um ginecologista. No retorno, ele disse que estava tudo ok, só repetiu um exame para tirar uma dúvida”, conta. A revelação, no entanto, veio após a intervenção de um ‘anjo’. “Depois disso, na academia, eu estava comentando com um dos alunos na academia, que era médico, o doutor Gabriel, e ele me disse: ‘me traga os exames que eu conheço esse médico’. Levei. Ele encaminhou os exames para o doutor Marco Antônio Dugatto, que prontamente identificou o câncer”.
A lutadora conseguiu descobrir o câncer ainda no início e precisou apenas retirar um quadrante da mama. De acordo com ela, o diagnóstico precoce foi essencial para que ela não perdesse a mama completa. “Hoje a gente relembra com calma, mas na hora dá um desespero. Eu sempre fui atleta, nunca fumei, bebia apenas socialmente. Conforme o médico falava, passava um filme na minha cabeça”, afirma.
Foi neste momento em que a experiência de carateca fez a diferença. Tendo representado Santos por dez anos nos jogos abertos, vestido as cores da seleção brasileira e colecionado medalhas em sua trajetória, a mente e o corpo de Andréa estavam preparados para enfrentar este problemão. “Eu aprendi a não me entregar. Eu fui treinada para resistir e vencer. Durante o tratamento, tinha dias mais difíceis e dias mais fáceis, mas eu me levantava, ia para a academia treinar. Você não consegue manter o mesmo ritmo, óbvio, mas eu tinha firme na minha cabeça que aquilo era só uma fase e iria passar”, relembra.
O preparo foi vital para Andréa. Ter uma vida ativa e saudável a ajudou, e muito, na evolução do tratamento. “Todos os médicos que passei destacaram isso. Todas as cirurgias que eu fazia, os médicos ficavam surpresos com a maneira como eu me recuperava. O meu oncologista até falou que duas coisas que eu não podia abandonar eram o acompanhamento médico e o esporte. O esporte me ajudou não só fisicamente, mas também psicologicamente. Na determinação, no entendimento de que era apenas uma fase”. Andréa passou ainda por uma cirurgia de retirada do útero e ovários, uma cirurgia para catarata precoce e retirada da vesícula, resultante dos efeitos colaterais do tratamento. “Existe um tabu de que, após a cirurgia, não se pode fazer esforço, pegar peso, por N questões. Mas não é bem assim. Claro que cada caso é um caso, mas atividade física ajuda muito na recuperação”.

Foto: Fernando Yokota/Jornal da Orla
Referência
Professora, Andréa se tornou referência também fora dos tatames, ajudando mães de alunos que também enfrentam ou enfrentaram o câncer. “Eu falo para elas da determinação que é preciso para superar. A gente conversa sobre as dificuldades. Explico que não se pode deixar abater, a mente comanda o corpo”, diz. Ela usa como exemplo uma história que a motivou a buscar a melhora com afinco. “Um dia, no hospital, um médico disse que eu deveria parar de fazer tudo, que eu era cancerosa e deveria ficar em repouso. Ele falou só para ter o prazer de tentar me diminuir. Eu chorei de raiva neste dia. Mas eu não deixei isso me afetar. É o que falo para elas: a vontade é sempre de ficar prostrada na cama, mas é preciso levantar”, aconselha. “O tratamento médico é indispensável, mas estar junto de outras pessoas, manter o convívio social, ter esse suporte emocional é fundamental”, ressalta.
De volta ao jogo
Além dos colegas de tatame, uma mudança cairia nos colos da vitoriosa lutadora. No último dia de radioterapia, ela recebeu uma ligação que ampliaria sua rede de apoio. A convite de um colega de faculdade, Andréa engatou o fim do tratamento com o início das aulas populares e, neste ano, completa 10 anos lecionando para crianças, adolescentes e adultos no bairro São Jorge, na Zona Noroeste de Santos. “Meu irmão que me levava para as sessões de radio, e nesse dia ele estava me motivando, falando de uma nova vida após o fim do tratamento. Bem, nesse momento toca o telefone e era este meu colega fazendo uma proposta para dar aula neste projeto. Eu aceitei e estou aqui há 10 anos já. Eu acredito que foi um ensinamento de Deus para mim.”
Este projeto proporcionou à Andréa ainda a oportunidade de voltar a competir. “Os alunos sempre falavam que queriam me ver lutando, então eu me inscrevi no másters. Lutei e venci. Isso também me ajudou a passar um ensinamento para eles, de superar as adversidades, entender o que é uma derrota, que não é o fim do mundo. A gente nunca entra para perder, mas é preciso saber perder. Eu digo que eles me incentivaram a motivá-los. É uma troca.”, conclui. A lutadora foi campeã da etapa que disputou, na Praia Grande.


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