
O que era para ser mais uma votação corriqueira na Câmara de Santos, na quinta-feira (17), se tornou uma verdadeira torta de climão e pode ter desdobramentos na sessão de hoje do Legislativo santista. O estopim foi a pautação da concessão da Medalha Braz Cubas à professora Mary Francisca do Carena – uma propositura da vereadora Débora Camilo (PSOL).
Normalmente, as homenagens propostas por vereadores têm votações meramente protocolares e são aprovadas rapidamente. Porém, e sempre tem um porém, não foi o que aconteceu. Vereadores que fazem frequentes debates ideológicos com Débora anunciaram que iriam se abster da votação.
A parlamentar reclamou da postura e lembrou que, na sessão anterior, foi realizada uma manobra para a homenagem não ser votada por falta de quórum. “A Mary tem um vasto currículo, uma mulher negra que passou por todos os desafios que a população pobre e preta passa”, disse. “Eu gostaria de entender o que faz a bancada de um partido se abster de homenagear uma professora, na Semana dos Professores. Se eu fosse uma questão ideológica eu até entenderia”, completou.
Ela citou que a Câmara aprovou homenagens a outras duas personalidades de esquerda, Aníbal Ortega e Eduardo Sanovocz, “dois homens brancos”. “Aí me vem o questionamento: o que tem contra dar o título a uma mulher negra?”, insinuando que haveria um viés racista e misónego na postura dos parlamentares.
INDIGNAÇÃO
Aí que o barraco desabou. O vereador Cacá Teixeira (PSDB), com seu característico tom de voz sereno, repudiou o posicionamento da colega. “Eu não ia me manifestar, mas esta declaração da vereadora Débora me incomodou, de que os vereadores estão levando em consideração a cor da pessoa que vai ser homenageada. Aqui não somos racistas”, afirmou.
Em seguida, pediu para a colega “botar a mão na consciência”, pois às vezes a pessoa colhe o que planta. “Toda ação corresponde a uma reação. Vossa Excelência não tem votado em algumas homenagens e a gente não vê um argumento. Foi feita uma homenagem ao deputado Paulo Alexandre Barbosa e a senhora votou contra, assim como em diversas outras homenagens”, disse.
Na sequência, outros vereadores se manifestaram, criticando as declarações de Débora Camilo. Fábio Duarte (PL) disse que “é muita baixeza dizer que os vereadores são racistas”.
Ele anunciou que votaria contra porque a vereadora “sistematicamente” vota contra qualquer propositura dele. “Semana passada, sugeri uma homenagem a um ministro do STF, André Mendonça, e ela se recusou a assinar (em apoio). Aqui nunca votamos por cor. Nunca vou aceitar ser chamado de racista, nasci no dia 13 de maio, o que é uma honra para mim”, declarou.
O debate durou exatos 39 minutos. No final, as abstenções viraram votos contra a proposta, que acabou aprovada por 14 votos a favor e seis contrários (Adriano Piemonte, Allison Sales, Fábio Duarte, Rafael Pasquarelli, Rui de Rosis Jr. e Sérgio Santana). A única abstenção foi de Zequinha Teixeira.
A homenageada
Natural de Lins, Mary Francisca do Carena é pesquisadora, escritora a professora universitária. Graduada em Letras pela Faculdade de Lins, tem mestrado em Língua Portuguesa pela PUC e pela UniSantos. É doutora em Filologia e Linguística pela Unesp e pós-doutora pela City University of New York (CUNY). Já apresentou seus trabalhos de pesquisa na Georgetown University, em Washington, D.C.; San José State University, na Califórnia; University of Texas, em Austin; e no Ibero-Amerikanisches Institut (IAI), em Berlim.
Atualmente, ela é presidente do Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra e de Promoção da Igualdade Racial de Santos.


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