Metrópole

Fiéis lotam igreja e se emocionam no adeus ao padre Javier Arana

18/10/2025 Marcos A. Ferreira
Marcos A. Ferreira

“Ele era durão, firme, mas com enorme coração, acolhedor, justo e incansável na defesa da fé e na luta contra as desigualdades sociais”. A frade de Simone Verônica Alves da Silva Anestassi sintetiza o que a reportagem do Jornal da Orla ouviu ontem (18), durante o velório e a missa de corpo presente do padre Javier Mateo Arana. “Foi meu conselheiro espiritual e exemplo para o nosso trabalho em favor dos pobres. Era muito carismático”, diz ela, que estava entre as centenas de fiéis (jovens, adultos e idosos) que lotaram a igreja Nossa Senhora do Carmo.

Padre Javier Arana falaceu às 5h deste sábado (18), após 118 dias internados na Santa Casa de Santos. Ele tinha diabetes e outras comorbidades, que se agravaram após paradas cardíacas, há cerca de três meses, quando foi levado para o hospital. O espanhol Javier Arana esteve à frente da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, na Ponta da Praia, durante 40 anos.

Simone Verônica sobe a rampa, onde padre Javier a esperava cantando

Aos 58 anos Simone frequenta a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo desde os 11 anos. Foi o padre Javier quem batizou o filho dela – “só não celebrou meu casamento, por causa de um compromisso assumido com os alunos do Coração de Maria, onde era professor”. Ela é integrante da Cáritas Solidária, criada pelo religioso, durante a pandemia, para servir marmitas a pessoas que vivem na rua. Terminada as restrições pandêmicas, Javier Arana deu o aval para que o grupo continuasse o trabalho social. “Hoje, temos 103 inscritos, mas atendemos regularmente 50 pessoas por dia, com café da manhã, e 20, diariamente, para tomar banho. O padre acompanhava tudo de perto.”

Para Simone Verônica Anestassi, a fama de “durão” era só à primeira vista, porque Javier não deixava nada para depois, tinha suas convicções. “Ele fez a opção pelos pobres, contra a desigualdade. De certa forma, falava na cara das pessoas aquilo que muitas delas não querem ouvir”, afirma. “Mas era muito acolhedor e atencioso. Costumava esperar as pessoas no alto da rampa e sempre cantava uma canção inventada por ele, envolvendo o nome de quem estava chegando. Tanto que, em meio a tanta tristeza, quando cheguei no meio da rampa, eu sorri; acho que quis sentir que ele estava aqui”.

PESSOA INTENSA

Para o bispo coadjuntor de Santos, Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães, o padre Javier era uma pessoa intensa. “Temperamento forte, espanhol, basco. Sempre uma pessoa impulsiva, mas positivamente; não era de ficar de braços cruzados”. Dom Mol, que presidiu a missa de corpo presente, disse essa celebração é como se fosse bálsamo. “Ao invés de anestesiar, deixa as pessoas consoladas em Deus. É sempre muito emocionante, muito bonito e profundo celebrar as exéquias, como nós chamamos, porque significa celebrar a gratidão por tudo o que ele fez aqui e uma certeza que a gente tem, pela fé, que é a ressurreição”.

O jovem casal Maurício Souza (35 anos) e Maria Julia (33) não conseguiam conter a emoção. Foi o padre Javier Arana quem celebrou o casamento deles, em 2023, e também quem batizou a pequena Isabel, em abril deste ano. Sem conter as lágrimas, Maria Julia citou outras “coincidências” que fortaleceu a relação com a paróquia e o religioso. “Eu queria trabalhar para ajudar os pobres e não conseguia seguir um caminho. Encontrei aqui na paróquia o padre Javier, que tinha um carisma enorme, era extremamente inteligente e me convidou para atuar no Cáritas, dizendo que eu tinha que viver a ação contra a pobreza, conhecer de perto, e não apenas ficar de longe. Javier trazia a palavra e a ação de Deus”, afirmou.

Para Manoel Messias a morte do padre Javier Arana “é uma perda muito difícil”. Aos 65 anos, Manoel é fotógrafo da paróquia há “pelo menos” 30 anos. “O padre era um amigo. Um homem carinhoso, acolhedor, mas não mandava recado. O que tinha de ser, ele dizia na hora, fazia na hora. E acolhia todo mundo”.

Maria José Batista, contou que não consegue imaginar a paróquia sem padra Javier. Aos 75 anos, essa paraibana de Balém da Paraíba, chegou em Santos em 1984, e sempre frequentou a igreja com Javier. Dois dos seus filhos e um filha casaram na igreja, “abençoados pelo padre Javier”. Maria José conta que tem seis filhos, seis netos e um bisneto, todos batizados pelo religioso. “Uma pessoa boa, espetacular, preocupado com as pessoas.

Padre Toninho, em dois momentos, antes da despedida do amigo

Padre Antônio Alberto Finotti, Toninho, da Paróquia São Judas Tadeu, que participou da celebração presidida por Dom Mol, afirmou que a amizade com Javier Arana era de amizade “e de ideias”. O que os aproximava, além do sacerdócio, era “a prática humanistas, a opção pelos pobres, pela justiça social”. Padre Toninho disse que a notícia da morte era esperada, em razão do agravamento do estado de saúde. “Uma semana antes de ele ser internado, tivemos uma longa conversa, refletimos sobre o Brasil, a ação pastoral. Analisando, hoje, parece que ele estava se preparando. Mas sempre animado. Era uma pessoa que não tinha meio termo: ou você amava, ou odiava”.

O PADRE JAVIER

Natural de Bilbao, Javier Arana nasceu em 11 de março de 1939 e foi ordenado presbítero em 11 de julho de 1965. Chegou ao Brasil em 1968 e, no ano seguinte, iniciou sua trajetória na Diocese de Santos, onde se destacou por mais de cinco décadas de dedicação pastoral, especialmente à frente da Paróquia Nossa Senhora do Carmo, na Ponta da Praia, em Santos.