Política

“O jogo está começando a virar”, diz Guilherme Boulos

08/10/2025 Marco Santana
Marco Santana

Prestes a assumir um cargo no Palácio do Planalto, no comando da Secretaria Geral da Presidência da República, o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL) desconversa sobre o assunto mas não economiza palavras para destacar os avanços do governo Lula. Para ele, “o jogo está começando a virar” e a aprovação tende a aumentar. Ele acredita que o presidente está tendo sucesso em seu plano de “colocar o pobre no orçamento e o rico no imposto de renda”. Boulos esteve em Santos na semana passada, para lançar seu livro “Para onde vai a esquerda?”. Nesta entrevista, ele faz um balanço da atuação do governo federal e analisa o cenário político, de olho em 2026.

 

ENTREVISTA A MARCO SANTANA

 

O senhor está sendo convidado para assumir uma vaga no primeiro escalão da Secretaria Geral da República. Quando assume?

Composição ministerial de equipe cabe unicamente ao presidente Lula, que é quem teve 60 milhões de votos para isso. Então, essa pergunta, essa questão é dele. Eu não me sinto nem à vontade para comentar uma questão que é de atribuição única do presidente.

A Câmara acaba de aprovar o projeto de isenção do Imposto de Renda. Qual o tamanho dessa vitória para o governo?

Essa é uma vitória para o país. É uma vitória do governo Lula, porque é um projeto do Lula, um compromisso de campanha do Lula, mas é uma vitória para o povo brasileiro. Um trabalhador que hoje ganha R$ 5 mil, uma professora, um bancário, vão deixar de pagar praticamente R$ 4 mil por ano. Nós estamos falando de mais de R$ 300 reais por mês que vai ficar no bolso desse trabalhador. Estamos falando de 90% da população brasileira. E como vai compensar isso? Fazendo com que quem ganha mais de um milhão por ano comece a pagar imposto, pague 10% sobre lucros e dividendos. É justo. Isso estava travado na Câmara há seis meses. É uma vitória do governo do presidente Lula, é uma vitória do Brasil.

O ex-ministro Zé Dirceu, que é uma figura importante da esquerda, disse recentemente que o governo do presidente Lula é um governo de centro-direita. O senhor concorda?

O Congresso é de direita, majoritariamente. O governo Lula é um governo de coalizão, que envolve partidos de centro-direita, para poder ter governabilidade. Então, tem ministro do União Brasil, do MDB, do PSD. Agora, as políticas do governo Lula são de esquerda. Zerar imposto de renda do povo e taxar super-rico, defender o fim da escala 6×1, retomar os programas sociais, como o Lula fez no primeiro ano. Bolsonaro tinha acabado com Minha Casa Minha Vida, o Mais Médicos e o Luz para Todos. O Lula ganhou a eleição com um discurso que tinha duas partes. Botar o povo no orçamento e o rico no imposto de renda. Durante os primeiros dois anos, trabalhou para botar o povo no orçamento. Agora, começou a botar o rico no imposto de renda.

Agora, se a gente analisa a composição do Congresso, percebe que tem pobre votando em em ricos. O senhor não acha que isso aí é um reflexo de um problema de comunicação das esquerdas?

Eu não acho que é só um problema de comunicação. Sempre na história existiu gente pobre que votou em candidatos de direito privilegiado. Se não, o Maluf nunca tinha sido prefeito de São Paulo. Não é um fenômeno novo. Lógico, existe um debate que tem a ver com disputa de valores na sociedade, com disputa ideológica, com disputa cultural na sociedade. Existe um problema de comunicação também. E a extrema direita, de fato, foi mais eficaz na comunicação de redes sociais. Mas o jogo está começando a virar. Você pega no tema da PEC da Blindagem, a esquerda conseguiu ganhar. Toda vez que a esquerda consegue ter um discurso direto, simples, reverbera na forma de comunicar. Agora, a sociedade é complexa. Se todo trabalhador votasse na esquerda, a esquerda governava todos os países do mundo. Só que não é assim. O sistema e a direita têm muitos mecanismos para poder capturar a consciência das pessoas.

Na sua avaliação, quais as pautas prioritárias têm que ser discutidas no Congresso no ano que vem, de modo que elas não se confundam como sendo meramente eleitoreiras?

Nós temos duas grandes disputas hoje no Brasil. A primeira, quem está do lado do povo e quem está do lado dos bilionários. Agora, tem uma segunda disputa no Brasil. Quem está a favor da soberania nacional e quem está defendendo o interesse estrangeiro, traindo a pátria. E isso também vai ser importante a gente conseguir aprovar um marco regulatório sobre as terras raras, os minerais críticos do Brasil, que o Trump está de olho grande aqui querendo tomar.

Pelo que o senhor está observando do cenário político, quem deve ser o candidato da direita que vai enfrentar o presidente Lula?

Eles estão com um problemão. Porque a Faria Lima quer o Tarcísio. O Centrão quer o Tarcísio. Mas é o Bolsonaro que vai definir quem é o candidato da direita. Essa é a verdade. Quem tem os votos da direita é o Bolsonaro. Então, ele vai decidir se vai ser o Tarcísio, se vai ser o filho dele, a Michelle ou um outro governador de direita. Isso não está claro. Na verdade, a direita hoje está igual barata tonta. Não só por não ter nome, mas por não ter projeto. Estão perdidos. Estão perdidos, sobretudo, porque se aliaram ao interesse internacional dos Estados Unidos contra o Brasil. E o povo está percebendo isso.

O senhor cogita a possibilidade de ser candidato no ano que vem ao Senado ou ao governo do Estado?

Eu acho que nós temos que construir no governo do Estado de São Paulo um nome de unidade, que seja o melhor nome para poder enfrentar o Tarcísio. E eu estou a serviço desse projeto. E defendo que o meu partido (PSOL) seja parte de uma frente de unidade para o governo do Estado. Acho que tem vários nomes que podem ocupar isso.

Por exemplo?

Na eleição anterior foi o Fernando Haddad. Já teve o Márcio França também. Você tem o próprio Geraldo Alckmin, se não for candidato a vice. Para o Senado, existe uma disputa de xadrez. O Bolsonarismo está jogando peso para tentar tomar o Senado para botar a faca no pescoço do Judiciário. Meu nome foi cogitado, mas minha história no movimento social assusta algumas pessoas de centro-direita e centro. O interior de São Paulo é um interior conservador. Eu acho que pode ter outros nomes que cumpram esse papel.