Velho, eu?

O espelho tem várias faces

04/10/2025 Ivani Cardoso
Reprodução

Beleza e envelhecimento podem caminhar juntos? Pensei nisso com a morte da atriz Claudia Cardinale, para mim uma das mais belas do cinema. Ela disse em uma entrevista há alguns anos, quando veio ao Brasil, que as rugas e os vincos em sua face eram o resultado de uma vida bem vivida. Acredito nisso!

Já ouvi algumas vezes que homens e mulheres muito bonitos são os que mais sofrem com o envelhecer, pela dificuldade de aceitar a nova imagem do espelho. Será mesmo? Vera Fischer, por exemplo, comentou em uma entrevista que, mesmo depois dos 70 e com muitos espelhos em casa, tem ótima relação com eles, se acha um mulherão e sempre com muitos projetos pela frente.

Um amigo filosofou outro dia: já reparei que pessoas boas ficam mais bonitas quando velhas, não carregam o peso da raiva, da inveja e das mágoas na alma. Talvez faltem pesquisas para validar o argumento, mas se pensarmos em algumas pessoas que conhecemos, parece correto. O propósito de vida faz mais sentido do que a aparência, afirmam os especialistas, mas se esquecem que os envelheceres são diferentes.

Falando por mim, posso dizer com certeza que o espelho ainda incomoda. Quando fiz a cirurgia da catarata, levei um susto: eu e todos em volta ficamos mais velhos. Bem que eu gostaria de eliminar algumas rugas e papos, mas falta a coragem. Meu maior medo é o resultado ficar pior.

Novos procedimentos, cremes e produtos prometem milagres e custam caro, mas se para você é importante e pode pagar por eles, por que não? O bom de envelhecer é se acolher nas escolhas que nos fazem bem. Cabelos brancos eu acho lindo em algumas mulheres, e bem que tentei deixar de tingir os meus na pandemia, mas não consegui. Ainda não estou preparada para eles, quem sabe um dia…

E os espelhos das lojas em que entramos para experimentar roupas? Parecem inimigos poderosos que aumentam peitos, barrigas e bundas. Mesmo assim, culpamos o espelho e levamos para casa as peças escolhidas.

Certa vez, há muitos anos, entrevistando Costanza Pascolato, perguntei como ela encarava o envelhecer. Ela contou que tentava ser uma pessoa interessante pelas experiências que vive, mas o curioso foi quando revelou que depois dos 60 não usava mais roupas com braços de fora.

Acompanho às vezes seus vídeos e fotos em revistas ou nas redes sociais, e ela parece sempre à vontade com os braços cobertos em modelos estilosos, combinando com o cabelos penteado, óculos e acessórios impecáveis; ela nasceu para ser chique. Mas pense nas mulheres comuns, em um calor 30, 40 graus: usar mangas compridas é um sacrifício maior do que mostrar as preguinhas que caem, mesmo com a musculação em dia. A dica pode ser não mexer muito os braços para não chamar atenção ou usar echarpes levinhas para disfarçar. Agora, se você nem liga para isso, curta o seu verão como quiser, ele é seu.

Idade e beleza são compatíveis, sim. E a melhor resposta eu tenho quando olho para a nossa querida escritora santista Carolina Ramos, que passou dos 100 e continua linda, elegante, ativa e cheia de projetos. E há muitas outras mulheres e homens, famosos ou não, que envelhecem de bem com a vida.

No Livro do Desassossego, Fernando Pessoa escreveu que “não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram”. Ficar sonhando com fotos do passado, dentes perfeitos e um corpo de 30 só vai trazer sofrimento. Então o melhor é pensar que a beleza nunca foi de fato o valor principal.