
Quer maior clichê do que falar que a vida é feita de momentos? Mesmo assim é uma frase que deveria ser lembrada diariamente. Perdemos tempo com bobagens, com mágoas passadas, com medos sem sentido, com receio da opinião de outras pessoas e com preconceitos que não levam a lugar nenhum.
Perder tempo pode ser uma fonte fascinante de prazer. Novos olhares para um mundo de possibilidades que deixamos passar por tentar economizar o que é finito.
Algumas pessoas, quando viajam, não se permitem relaxar e embarcam em programas cansativos e que nem estão de acordo com os limites impostos pela idade, esquecendo de parar para observar o mundo à sua volta. Mesmo cansadas, elas continuam caminhando para não perder tempo e gastam as oportunidades de apreciar a paisagem, de olhar para as expressões das pessoas, de ouvir os próprios pensamentos, de respirar com calma e perceber os sentimentos que estão pedindo atenção.
Eu, por exemplo, sou preocupada demais e reconheço. Até tento mudar, mas quando percebo lá estou sofrendo por antecipação. Mais tarde reconheço que exagerei na dose, mas já foi.
Pequenos presentes para alegrar o dia é um exercício para perder tempo com qualidade. Um cafezinho quentinho e gostoso em um local agradável, um vinho ao entardecer esperando o pôr do sol, deixar o calçado na areia e mergulhar os pés na água do mar, um sorvete do sabor preferido, um livro daqueles que você não quer que acabe, um banco de um parque ou tantas outras coisas mais que valem a pena no tal do aqui e agora.
Acredito que a grande sabedoria é dosar nosso cotidiano com leveza e curiosidade. E isso não vale para grandes aventuras, vale para a vida. O celular é um objeto identificado muitas vezes para lembrar o que não precisa ser lembrado. Quase sempre os retornos às mensagens podem esperar; e se há urgência, ligue! Olhar a paisagem real é muito melhor do que aquelas registradas pela câmera de um potente celular.
E a leveza também conta para estar perto de pessoas queridas, familiares e amigos que nos fazem bem, que nos divertem, que são tão especiais quanto sentimos que somos para eles.
Aproveitar a vida, para mim, é perceber os limites e deixar de lado o que virou impossível com a passagem dos anos. É aprender a se desapegar do que agora não dá mais. É buscar as perguntas esquecidas e que agora podem ter respostas.
Gosto quando vejo casais ou amigos conversando em um banco de praça ou de jardim. Fico tentando imaginar o tema, as histórias de cada um. Admiro pessoas que não têm vergonha de usar uma bengala ou cadeira de rodas para não ficar para trás e desistir. E quando vejo gente apressada sem olhar para os lados tenho a impressão de que não está se deixando perder na magia dos pequenos instantes.
Esqueça a face sisuda do tempo que incomoda, confunde e limita. A melhor delas é a que liberta.



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