
Os desafios e as urgências de ações de redução dos impactos das mudanças climáticas e as vantagens (financeiras e ambientais) do uso de energia solar foram destaques, nesta terça-feira (23), da quarta edição do BS Debate. Dois painéis reuniram, na Associação Comercial de Santos (ACS), especialistas, secretários municipais (seis prefeituras representadas) e empreendedores do setor, além de lideranças ambientais.
O professor Oswaldo dos Santos Lucon, da Fundação Florestal e da Universidade de São Paulo (USP), abriu o evento destacando a urgência das ações na implantação das políticas públicas. “Os mais pobres são os que mais sentem os impactos das mudanças climáticas. Aqueles que estão nas palafitas, nas encostas e em áreas de vulnerabilidade”, afirmou.
Para o acadêmico e pesquisador, é preciso “pensar fora da caixa”, porque as soluções não podem ser isoladas e não estão apenas no investimento em tecnologias. “Temos que pensar em novas técnicas construtivas, para tirar as pessoas da situação de precariedade. Não precisamos construir apenas com tijolo, concreto, granito”, disse, destacando o projeto Parque Palafitas, em Santos.
Com participação por videoconferência, Raquel Martins, especialista em Meio Ambiente, Sustentabilidade e Mudanças Climáticas da Confederação Nacional dos Municípios, destacou que a falta de recursos e mão de obra qualificada são um desafio para as prefeituras do Brasil. Lembrou que o Fundo do Clima conta com R$ 10 bilhões, porém, a maior parcela é via financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o que, em função dos juros, torna-se um obstáculo.
Gabriel Micelli, secretário-adjunto de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Sustentabilidade de Santos, destacou que o projeto-piloto das ´geobags` (bolsas de contenção no mar, para reduzir o impacto das marés altas) registra “bons resultados”. Referindo-se às recentes ressacas, afirmou: “Nos locais onde as calçadas foram mais danificadas não havia a barreira. Já está sendo estudada a ampliação do projeto”.
Andrea Ribeiro, coordenadora de Sustentabilidade da ACS e presidente do Conselho Municipal de Meio Ambiente de Santos, ressaltou que as iniciativas do Plano de Ações Climáticas do Município estão sendo acompanhadas pelos conselheiros. “As emergências climáticas são responsabilidade de todos”, declarou.
AÇÕES INTEGRADAS
O secretário de Meio Ambiente de Praia Grande, Valdir Pereira Filho, citou a decisão do Comitê de Bacias Hidrográficas da região, de investir R$ 9 milhões em um Plano Integrado de Macrodrenagem, como exemplo “da importância das ações e políticas serem integradas”. “Cada um tem um plano para chamar de seu, mas é preciso ter integração”.
Cleiton Santos, secretário de Meio Ambiente, Segurança Climática e Bem-Estar Animal de Cubatão, concentrou sua participação no que chamou de “justiça climática que tem pautado as ações da Prefeitura”.
A necessidade da maior presença do Estado e da União, compartilhando responsabilidades com a Prefeitura, e a falta de recursos foram as principais questões abordadas por César Augusto, secretário de Meio Ambiente e Bem-estar Animal de Itanhaém.
O município de São Vicente estava representado pela secretária de Meio Ambiente, Flávia Ramaciotti, que ressaltou a necessidade de pensar e agir, para além da Cidade. “Não existem soluções individuais. Por exemplo, 80% dos resíduos sólidos que recebemos não são gerados na Cidade. Este não é um problema só de São Vicente”, declarou.
Alexandre Dalla Pria, secretário de Agricultura e Meio Ambiente de Mongaguá, disse que não há como solucionar os problemas atuais e os que estão por vir sem integração. “Estamos trabalhando com planejamento, buscando parcerias, entre outras medidas. Mas não temos recursos. Precisamos agir em conjunto”.
Energia solar aparece como solução econômica e sustentável
O segundo painel do BS Debate teve como tema central “Energia solar: uma alternativa sustentável, tecnicamente viável e lucrativa”. Os convidados falaram sobre modelos de captação de energia solar para casas, condomínios e prédios públicos.
Pedro Drumond Junior, coordenador da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), destacou o crescimento o uso da tecnologia. “No Brasil, cerca 99% dos municípios já contam com pelo menos um sistema instalado”.
No entanto, ao destacar desafios para o setor, como temas relacionados à regulamentação e interesses contrários ao uso dessa matriz energética, Drumond Junior, disse que a solução ainda é mal aproveitada pelo poder público. “Em São Paulo, menos de 0,5% da potência instalada está em prédios públicos”.
O diretor de Infraestrutura e Apoio da Santa Casa de Santos, Bruno Dantas Gonçalves, falou da resistência e desconfiança que enfrentou quando iniciou o projeto de instalação do sistema de energia solar no hospital, começando pelo valor do investimento, R$ 5 milhões. “Tive dificuldade de convencer, mas fizemos parcerias e, hoje, a conta de luz que era de cerca de R$ 320 mil/ano está em torno de R$ 50 mil”.
Valdez Lopes, da Energy da Ineer Energia, abordou uma modalidade de uso da energia solar a distância: são ´fazendas` (usinas solares) instaladas em outras localidades, mas que, por meio de parcerias com distribuidoras, fornecem para comércios e condomínios. “É energia compartilhada com um cliente que não tem investimento – só paga quando recebe – e não há necessidade de fidelização. No caso da Ineer, temos 52 usinas e fornecemos para cerca de 7 mil clientes, pequenos comerciantes”, afirmou.
Raphael Alvarenga, CEO da Alva Energia Solar falou sobre o projeto de captação de energia solar no prédio da Associação Comercial de Santos. “Um projeto que funcionou e já traz uma economia de R$ 3,5 mil a R$ 4 mil, por mês”.
O segundo painel foi aberto com apresentação do trabalho do Instituto EcoFaxina, William Schepis, que destacou, principalmente, a importância dos manguezais e do trabalho que está envolvendo moradores de palafitas na recuperação e limpeza desses ecossistemas. (MAF)


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