Velho, eu?

Meus velhos favoritos

20/09/2025 Ivani Cardoso
Arquivo pessoal

Desde muito jovem eu gosto de pessoas mais velhas, bem mais velhas. Sempre fui fascinada por histórias de vida, fragmentos de memórias e experiências que mudam destinos e abrem novas portas para o conhecimento. Muitos amigos ainda acham estranho esse meu interesse por velhos, como se não fossem velhos também, e porque escrevo sobre um tema que incomoda tanta gente.

Fico indignada quando alguém reclama dos velhos, que demoram na fila da farmácia ou no banco, que usam transporte público sem necessidade, que falam com qualquer pessoa na rua. Por que não? Isso é preconceito, idadismo, ageísmo ou qualquer outro nome que ainda é usado.

E para quem argumenta que os velhos geralmente são muito ranzinzas e mal-humorados, eu respondo que os jovens também, encastelados em seus potentes celulares à procura de vidas roubadas de redes sociais, distantes das suas.

Não, os velhos não são santos. Há os chatos, os chantagistas, os dramáticos, os egoístas, os coitadinhos de mim. E há os generosos, os sábios, os divertidos e os que aceitam a passagem do tempo sem neuras e com curiosidade no modo ativar.

Como jornalista, lembro que meu primeiro chefe foi Rômulo Merlin, que ficou amigo até o final da vida. Quando eu entrei na redação toda entusiasmada para o primeiro dia do estágio, ele disse: procura outra profissão, você é uma menina educada, isso não serve para você. Estava enganado, e muitas vezes rimos dessa lembrança.

Um dos meus melhores amigos foi o poeta Narciso de Andrade. Era uma sintonia fina, de amizade, de conversas, de reflexões sobre a poesia, sobre a literatura, sobre a vida. Narciso mudou meu olhar para o mundo e tenho comigo o original de um poema inacabado e cheio de rasuras que ele fez para mim e não conseguia terminar. Ganhei da esposa Amélia, depois da morte do poeta, e ela disse que ele nunca entregou porque o resultado não estava à minha altura. O poema é lindo e volto a ele quando bate a saudade do amigo.

Bem jovem, também gostava de ir à casa de Maurice Légeard para tomar café em uma caneca esquisita e amarelada para falar de cinema. Ele, que brigava muito, sempre foi doce e respeitoso comigo, aprendi muito sobre filmes, diretores e atores. Ele sabia muito e tinha um ótimo senso de humor atrás da couraça do velho que adorava provocar e incomodar.

E na redação convivi com velhos que fizeram história e fazem parte da minha: Roldão Mendes Rosa, Evêncio da Quinta, Clóvis Galvão e outros. Era um prazer conversar com eles, descobrir passados e imaginar tempos que não vivi, mas gostaria de ter vivido. E o Gilberto Mendes especial, quantas entrevistas que eu fiz com carinho e dedicação para o mestre da música, de expressão serena e talento infinito.

Outro homem que deixou saudades foi o médico Jair de Oliveira Freitas, dos diagnósticos precisos e das opiniões polêmicas. Quantas noites conversávamos até tarde na Associação dos Médicos de Santos, eu tentando acompanhar seus argumentos filosóficos para o sentido da vida.

Chegar na velhice e poder manter amigos velhos e jovens é um grande privilégio. Aprendo com todos e espero que também ensine um pouco do que trago na bagagem de décadas.

E só para terminar as lembranças dos meus velhos preferidos ainda preciso citar o mago Cid Marcus, um dos homens mais inteligentes que eu conheci até hoje, ao lado da esposa Thereza, que continua linda e sábia, envelhecendo de forma natural como deveria ser para todos.

Não, faltou um: o querido artista Lúcio Menezes. Quando eu chegava no seu ateliê, os olhos dele se iluminavam, me pegava pela mão e falávamos de sonhos, de sua musa Pagu e da existência em mundos que só ele conseguia perceber.

Saudades de todos eles. Celebrar a amizade de ontem, de hoje e de sempre é a melhor forma de se conectar com a vida. Pessoas especiais não têm idade. E quem se afasta dos velhos perde a chance de um dia, como eu, poder recordar e agradecer. Somos resultado dessa engrenagem poderosa do tempo.