
Com sólida carreira dedicada à escultura, à cerâmica e ao ensino de artes, Elver Savietto, 70, refere-se a si mesmo como um “quebrador de pedras”: “Não sei se sou artista, eu quebro pedra, não é nada de mais”, assume. “Ganhei prêmios? Ganhei, mas artistas para mim são aqueles que morreram no século passado, são os meus ídolos, principalmente os de meados do século 19 até os anos 1960, como os do modernismo, que estudei para desenvolver meu trabalho com escultura”.
São 50 anos dedicados às artes visuais, e mais de 30 ensinando escultura e cerâmica numa sala de aula e ateliê dentro da Universidade Santa Cecília (UniSanta), instituição à qual é ligado desde 1978, quando ingressou como aluno no extinto curso superior de Artes Plásticas. Entre as décadas de 1970 e 80, foi premiado em importantes salões de arte, como a medalha de prata no Salão de Belas Artes de Piracicaba.
Na linha do tempo artística de Elver, a cerâmica veio primeiro, em 1971, ao ganhar do pai, Guelder Savietto, um livro de autoria de do artista Armando Sendin (1928-2020), intitulado “Cerâmica Artística”, recheado de técnicas diversas. “Meu pai também me deu argila e aquilo mudou a minha vida! As primeiras peças que fiz foram peixe, cobra, bichos em geral, fazia mais peixe porque era o que eu via em Santos”, conta o artista, que tinha 16 anos quando passou a subir sozinho a São Paulo, de ônibus, para aprender cerâmica num ateliê do Butantã.
A escultura surgiu em 1976, em um curso em Ouro Preto. “Fiquei fascinado quando terminei uma peça que eu mesmo esculpi. Nunca tinha visto algo tão bonito quanto uma pedra polida, é uma realização de outro mundo, é uma sensação de que você criou alguma coisa do nada” descreve.
Seu primeiro ateliê funcionou de 1980 a 1994, numa cela da Cadeia Velha, na Praça dos Andradas, Centro Histórico de Santos, onde ministrava cursos e conviveu com personagens históricos como o cineclubista e agitador cultural Maurice Lègeard.
Seu pai foi professor de escultura, composição e desenho na UniSanta de 1979 a 1993, e foi por meio dele que Elver foi ensinar na Universidade, primeiro, ao auxiliar o pai nas aulas e, a partir de 1994, assumiu completamente as aulas de escultura e, em 2001, as de cerâmica.
“Eu gosto de arte desde pequeno, eu fugia para dentro dos meus cadernos de desenho”, lembra Elver, que tem três irmãos. “Meu pai me ajudou muito porque eu era um garoto-problema, e quando eu estava desenhando, modelando, fazendo cerâmica, me concentrava e ficava em casa”, lembra o artista, que é casado há 41 anos com Mari, “fonte de inspiração, incentivadora de meu trabalho e a maior parceira que eu poderia ter”, com quem teve os filhos Ian, de 38 anos, e Tai, de 36.
Seu ateliê dentro da Unisanta funciona no quinto andar do prédio de número 266 da Rua Oswaldo Cruz, no Boqueirão, onde se acessa de elevador, e, depois, subindo dois lances de uma escada toda decorada com mosaicos coloridos, feitos por ele e seus alunos. Algumas peças de cerâmica e esculturas de ferro decoram a entrada do ateliê, uma grande sala iluminada, com teto alto e largas janelas de vidro.
Esculturas se espalham por toda parte, sobre pedestais, mesas, cadeiras, estantes, há muitos estudos, rascunhos, cartazes e um frigobar. Pelas paredes, telas e peças de cerâmica esmaltadas penduradas lembram o artista de seus erros e acertos. “Não liga para a minha bagunça, pois eu me encontro nela”, avisa Elver.
Elver emenda uma peça atrás de outra, encomendadas ou não, como um mosaico de Rosa dos Ventos que ele fez para a Ilha das Palmas, entre Santos e Guarujá, com cacos de cerâmica. “Usei a mesma técnica do Gaudí (1852-1926), que é quebrar a cerâmica, dá muito mais trabalho, você tem que ficar com um alicate o tempo todo acertando os pedacinhos para eles se encaixarem, o resultado fica muito mais bonito”.
“A minha temática é toda baseada na cidade de Santos”, diz o artista, que era fascinado por libélulas quando criança, e resolveu explorar a forma do inseto alado em suas peças mais recentes.
Ultimamente, Elver vem trabalhando em diferentes estilos: bolachas de cerâmica – à qual ele chama de fruteira, apesar de não fazer peças utilitárias – com pequenas figuras de peixes e libélulas; num mosaico com cacos de vidro e outros materiais reciclados; e esculturas em pedra-sabão, para as quais usa formão e martelo, inspirado em uma de suas várias referências, o artista britânico Henry Moore (1898-1986).
Elver diz que gostaria de ter mais 70 anos pela frente para aprender tudo que ainda necessita saber. “Estudando a história, percebo que sei tão pouco a respeito de tudo. Quando vejo artistas novos cheios de certeza, fico com inveja. Não sei nada perto deles. Duvido de meus trabalhos o tempo todo”, conclui.
Reportagem realizada em 9 de junho de 2025. @elversavietto
Esta reportagem, parceria do Jornal a Orla com os jornalistas Carlota Cafiero e Claudio Vitor Vaz, faz parte do projeto Por Dentro do Ateliê II, contemplado na 11ª edição do Facult. A cada 15 dias, o Jornal da Orla vai mostrar um dos 10 registros produzidos pela Carlota e pelo Claudio, que vão integrar um livro e também serão tema de uma exposição no Centro de Cultura Patrícia Galvão.



É professor o mestre.
Vive do salário que oficia na Universidade
Artista Escultor vive da arte da escultura.
Escultor não E !!
Quem dera que mais artistas como ele fossem tão conscientes. A busca do saber, a fome do amanhã, aprender a melhorar nossos erros é uma lição de bem viver. Mestre!!
Querido Elver, meu primo cheio de idéias e obras belas desde o Festival de Inverno onde estavamos participando em 1976.
Desejo-te muitas felicidades pelos 70 anos de vida e que os anos á frente sejam plenos de criatividade!
Saudades e grande abraço da Lili