
Pesquisadora em psicologia do esporte explica que não dá mais para negligenciar o cuidado mental dos atletas
Estão se tornando cada vez mais comuns os casos de atletas profissionais se afastando de suas atividades por questões psicológicas, desde grandes astros do esporte como Simone Biles, Michael Phelps e o brasileiro Gabriel Medina, até atletas de menor expressão. O fato é: ser atleta é mais do que estar com o corpo apto. Sem uma mente saudável, o desempenho pode ser abaixo daquilo que se espera e isso pode se tornar uma bola de neve.
Segundo a psicóloga esportiva e pesquisadora no assunto, a Profa. Dra. Juliane Jellmayer Fechio, docente nas licenças da CBF Academy para treinadores, a preparação psicológica é um dos pilares do treinamento esportivo. “Os atletas precisam estar bem tecnicamente, fisicamente, taticamente e psicologicamente. O ambiente esportivo é repleto de adversidades e estímulos de estresse. E isso desde as categorias de base, então, o atleta que consegue chegar ao profissional convive com essas questões desde pequeno. Essa busca pelo sucesso esportivo requer muita resistência mental. Quem não tem essa resistência, na maior parte das vezes, não alcança esse patamar”, afirma. “As pessoas veem um grande atleta performando e não imaginam os anos de dedicação extrema que estão envolvidos ali”, completa.

Foto: Arquivo Pessoal
Ela, que já atuou em grandes clubes de futebol como o Santos, defende que o atleta deve desenvolver o que ela chama de ‘habilidades chave’ para promover uma preparação mental maior e mais resistente. “Essas habilidades psicológicas podem ser treinadas por meio da preparação. Elas podem fazer a diferença entre o bom e o mau desempenho. A habilidade de autoconfiança é muito importante para um atleta, a concentração, são exemplos de coisas que podemos treinar e melhorar em um acompanhamento feito desde pequeno, o que é o ideal”, diz. “O psicólogo esportivo é mais do que um profissional da saúde, é um profissional do esporte. Para desenvolver essas habilidades, é preciso acompanhar o atleta em seu ambiente de trabalho”.
Outro ponto que Juliane entende que pode melhorar o desempenho de um atleta é o tempo dedicado ao consumo de cultura. Em 1992, o ídolo do São Paulo, Raí, já expunha sua visão sobre este assunto no programa Roda Viva, entendendo que um jogador que consome cultura joga melhor. A pesquisadora entende que existe uma relação indireta. “Consumir cultura pode, sim, de maneira indireta, mudar positivamente a forma como um atleta se comporta. Conhecer diferentes culturas pode aumentar a capacidade de adaptação, de comunicação, entender diferentes formas de treino e estratégias, também ajudar na criatividade e leitura de jogo”.
Fundamental
Juliane afirma ainda que não é mais possível negligenciar a psicologia esportiva, já que, na sua avaliação, todos os componentes envolvidos no desempenho de um atleta exigem regulação psicológica adequada. “A falta dessa busca, seja nos clubes ou por iniciativa particular, tem levado muitos atletas ao adoecimento”. Ela completa que o cenário atual é muito diferente daquele que encontrou quando iniciou sua carreira, há cerca de 15 anos, mas ainda existe resistência. “Ainda não conquistamos o mesmo espaço que outras áreas da ciência do esporte, mas o cenário já mudou muito, não só no futebol, mas em todas as modalidades. Hoje, treinadores e atletas, muitas vezes, têm seu psicólogo particular e clubes têm investido nessa área, chegando a ter, às vezes, um psicólogo para cada categoria. Mas ainda existem aqueles gestores e dirigentes que não entendem a necessidade, ainda existe muita desinformação… São barreiras que precisamos romper”, finaliza.
Superação
O jogador Judson Tavares conta que a psicologia esportiva esteve presente tanto nos momentos bons quanto nos ruins de sua carreira. Hoje, com 32 anos, ele começou seu trabalho psicológico quando atuava no San Jose Earthquakes, da MLS, em 2020, em pleno período de Pandemia da Covid-19. “Esse trabalho me ajudou muito. Eu pude ter um dos meus melhores anos graças às ferramentas que desenvolvi junto ao psicólogo para que eu pudesse ter maior concentração, melhor visão de jogo e, consequentemente, melhores decisões em campo e também não me abalar após cometer erros”, diz.
Ele voltou a contar com o apoio psicológico em 2024, na sua segunda passagem pelo Avaí, de Santa Catarina, onde ele estava em uma situação totalmente diferente de sua primeira passagem, em 2016. “Desta vez o cenário era diferente. Eu estava triste porque não conseguia render dentro de campo, estava sem entrar nos jogos, com lesões… E a psicóloga me ajudou com essa situação. É muito importante cuidar da cabeça, a gente, enquanto jogador, se preocupa muito com a questão física, mas é preciso ter uma boa saúde mental para jogar bem”, afirma.
E Judson aconselha os colegas a buscarem o apoio psicológico. “Eu entendo os atletas que têm receio, mas busco apresentar o que a psicologia fez por mim, todos os benefícios que tive, como me ajudou nos momentos difíceis. Às vezes você tem dúvidas se quer seguir na carreira, devido à idade, do rendimento, e é aí que entra o psicólogo esportivo, para te ajudar a abrir os olhos. É sempre importante ter uma atenção redobrada com a saúde mental”.

Foto: Fabiano Rateke/Avaí F.C.


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