
Um esporte com raízes na ‘Velha Bota’ europeia vive no coração dos santistas e encanta os praticantes com facilidade. A bocha une benefícios físicos e mentais à amizade, família e competição. Em Santos, a modalidade é vitoriosa. A cidade é a maior campeã dos Jogos Abertos do Interior, são cinco títulos conquistados na Bocha-Rafa, um orgulho para a cidade e para Fernando Gonçalves Nunes da Silva, treinador da seleção santista e tricampeão de bocha.
Nas palavras desta lenda do esporte: “A bocha é uma terapia. Tem muito preconceito sobre o esporte, associam à bebida, zoeira, porque era praticado em bares e clubes e também dizem que é esporte de velho, mas a verdade é que é um esporte muito democrático. Aceita homens, mulheres, crianças e idosos”, afirma Fernando. “A verdade é que a gente começa a jogar bocha novinho, mas envelhece bem, porque fica com a cabeça e o corpo saudáveis”, completa em bom humor.
Aos 77 anos, Fernando conta que a realidade do esporte mudou muito. “No início, a criança não podia entrar na quadra, ficava aquela coisa até parecida com bilhar, sabe? Mas graças a Deus isso mudou. Na bocha, hoje, você vê partidas de jovens de 15 anos contra senhores de 80. Eu mesmo, já perdi e ganhei de pessoas mais novas. Novamente, é um esporte democrático”, diz. “Por outro lado, a popularidade caiu. Santos já teve mais de 40 clubes de bocha. Hoje tem dois”.

Foto: Fernando Yokota
Outro destaque da Bocha Santista é o professor universitário e advogado Marcelo Henrique Gazolli, que possui forte relação com a modalidade, além de ser um aprendiz de Fernando. “Fui apresentado à bocha pelo meu pai, que era praticante. Posso dizer que nasci em um campo de bocha. Minha relação é cultural e esportiva. Trata-se de uma modalidade extremamente técnica e, justamente por isso, permite que pessoas de idade avançada se mantenham competitivas”.
Marcelo também fala da relação da modalidade com a Itália. “A bocha é, de fato, uma paixão dos italianos, capilarmente difundida na Itália, praticada tanto como lazer, como profissionalmente. Chegou a Santos através da imigração italiana, que, entretanto, estava de passagem pelas regiões cafeeiras paulistas. Amo o Brasil e minha nacionalidade, mas não posso negar que praticar bocha cultiva dentro de meu coração as heranças italianas, mais até do que comer pizza, algo que sinto prazer em fazer, ainda mais se a pizzaria for daquelas bem tradicionais, como a do Clube de Bocha Piquery, na capital paulista, cujas mesas ficam exatamente em volta das canchas de bocha”.
Lembranças
Fernando Gonçalves está presente na bocha santista desde os primórdios da modalidade nas competições, em 1990, sendo o técnico da primeira seleção. O primeiro título dos Jogos Abertos, no entanto, só veio nos anos 2000. “Eu participei dos primeiros três títulos, em 2000, 2001 e 2003. Depois, o pessoal deu continuidade ao projeto, ainda bem. A bocha é algo bem familiar, eu comecei por causa de um cunhado que jogava e eu comecei a acompanhar ele. A partir daí que dei início, já joguei no Vasco, no Saldanha, agora estou lá no Botafogo”, conta.
O treinador relembra da edição dos Jogos Abertos de 2003, que aconteceu em Santos, com emoção. “Fazia um tempo que Santos não era campeão e, como aquela edição seria aqui, decidiram investir um pouco mais. O coordenador da Fupes na época, Miguel Pires, percebeu que os jogos de menor expressão, como a bocha, a malha, o dominó, etc. contavam os mesmos números de pontos que os esportes tradicionais e ajudou no incentivo. Lembro de sermos campeões neste ano e ele me abraçar, pedindo para eu parar de chorar”.
Gazolli destaca a coletividade envolvida na seleção pentacampeã e o maior nome da bocha santista: Belmiro Paiva Neto, o Mirinho. “Santos é a única cidade que venceu cinco vezes a bocha da primeira divisão dos Jogos Abertos do Interior. Portanto, o destaque, no caso, é a coletividade, uma vez que existem pessoas, uma base, que estiveram presentes em todos os títulos. O maior destaque, a bocha santista não está mais praticando. Mirinho defendeu a seleção brasileira e conquistou o 3.º lugar no campeonato mundial individual disputado em Lugano, na Suiça.”
Marcelo Gazolli ainda revela seu sonho em ver a bocha retomando seus tempos áureos. “No fundo, no fundo, eu ainda sonho com o município criando espaços para a prática esportiva orientada a todos os seus públicos, não somente aos jovens, mas especialmente aquelas modalidades que podem congregar, no mesmo espaço, o avô, a avó, o pai, a mãe, o neto, a neta, pessoas íntegras e/ou com as mais diversas espécies de deficiência, concretizando a democratização e o direito à prática esportiva”.


Gosto de jogar bochs rafa moro em santos no.bairro Jose menino e nao encontro onde posso jogar