
Quantas vidas cabem em uma só? Às vezes, uma única escolha nos conduz por décadas. Um curso feito aos 18 anos, um crachá recebido aos 22, um salário estável aos 30. Tudo parece certo até o dia em que não faz mais sentido. E, então, silenciosamente ou com estrondo, algo muda. De acordo com um levantamento do LinkedIn feito no Brasil no final do ano passado, as transições de carreira completas (ou seja, para áreas sem relação direta com a anterior) cresceram 34% entre 2020 e 2023 e o grupo que mais protagonizou essas mudanças tem entre 38 e 56 anos. Mas é claro que não há receita, nem faixa etária consolidada, para essas transformações.
Na Baixada Santista, três mulheres, que são exemplos de um universo muito maior, decidiram ouvir esse chamado. Abriram mão de carreiras sólidas e rotinas para buscar o que verdadeiramente as representa. Longe de fórmulas mágicas ou finais hollywoodianos, elas seguem escrevendo, dia após dia, suas novas biografias.
Uma dessas histórias é a de Adriana Rodrigues Seixas. Publicitária de formação, trabalhou com várias coisas, passou um bom tempo como corretora de imóveis, da venda de conceitos da publicidade às vendas físicas dos imóveis, em algum ponto, começou a perceber que vestia personagens que já não lhe cabiam.
Foi aí que decidiu inverter a lógica, em sociedade com uma amiga dos tempos da universidade, criou uma marca própria, a Anarquia de Vestir. Na sua definição, a grife faz mais do que roupas e acessórios, “expressa pensamento e rebeldia estética”, que era algo que buscou desde sempre, mas que as circunstâncias da vida represaram.
Hoje, entre tecidos, desfiles e projetos culturais, ‘Drix Seix’ – como passou a assinar suas criações como estilista de moda – reencontrou a liberdade que o mercado havia costurado com linhas invisíveis.
“Os cursos de moda começaram mais recentemente. A publicidade eu escolhi, pois eu adorava criar e desenhar, na minha cabeça, esse curso me deixaria mais perto do que eu sempre fui apaixonada, a moda”, afirma Drix. A empresária ainda conta que pretende trabalhar no ramo e não mudar mais. “Estou com vários projetos para serem lançados, estou confiante”, conclui Drix.
PALCOS
Rubeni Carpanedo também conhece essa sensação de “não se enquadrar”. Formada em jornalismo em 1996, construiu uma carreira na televisão. Apresentou programas, cobriu pautas, desenvolveu projetos próprios como o ‘Noivas e Festas’, que permaneceu no ar por mais de uma década.
Mas a pandemia trouxe reflexões que iam além das demissões em massa no setor. Rubeni percebeu que certas pautas a deixavam deprimida. “Eu voltava no carro chorando”, lembra, especialmente quando cobria casos de abuso infantil. Fazia o trabalho, recebia o salário, mas não encontrava ali a felicidade.
Em 2022, um amigo cirurgião plástico a convidou para integrar a banda ‘Old K7’. Rubeni sempre cantou em família, mas nunca profissionalmente, e aceitou o desafio.
Hoje, a banda é sua principal fonte de renda e – mais importante – de satisfação. “Eu optei agora por ser feliz”, resume. “No palco, eu consigo deixar de lado os problemas.”
Segundo ela, as vezes aparecem “freelas” de jornalismo e ela aceita. “Eu faço traduções e também dou aula de inglês. Precisamos fazer várias coisas e ter outros planos na vida. Se hoje, eu dependesse somente da profissão na qual me formei, seria complicado. Mas eu amo os palcos. Cantar faz bem para alma”, afirma Rubeni.
VINHOS
A trajetória de Andrea Regina Silva dos Santos começou na educação. Professora formada pelo antigo curso para preparação de professores de nível médio, o magistério, ela lecionou em escolas, creches e centros comunitários. Sempre gostou de ensinar, especialmente para quem precisava virar a chave na vida. Depois migrou para a área técnica e trabalhou em administração.
Aos 40 anos, afastada do mercado para cuidar da filha, Andrea se viu em um almoço casual que duraria três horas e mudaria sua vida.
Um empresário do ramo de vinhos, impressionado com a naturalidade com que ela falava sobre bebidas, a convidou para trabalhar em sua importadora. “Esse homem é louco”, pensou na época. “Como convida uma professora afastada para vender vinho?”.
Quinze anos depois, ela é sommelier (especialista em vinhos e outras bebidas) e representa três importadoras e uma empresa de assessoria e consultoria.
Além de ser mulher, Andrea conta que o início foi bastante complicado e sofreu preconceito também por ser uma mulher preta. Hoje, é um nome no mercado.
Andrea costuma dizer que vender vinho é, no fundo, uma extensão de sua vocação para ensinar.
“Antes de vender o litro, a gente vende a história do vinho”, explica. Em um mercado restrito e difícil, ela abriu caminho vendendo conhecimento, etiqueta e, principalmente, paixão pela bebida sobre a qual já falava tão bem naquele almoço de três horas.


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