Economia

Mercado de pianos encolhe com as novas tendências de consumo

19/07/2025 Mariana Nerome
Envato

O diretor do Conservatório Musical Popular Erudito, na Ponta da Praia, Paulo Ricardo Nogueira, testemunha a transformação do mercado musical

Por décadas, o som grave e elegante de um piano acústico simbolizava status e cultura nas residências. Hoje, os instrumentos enfrentam o silêncio de um mercado em retração. Apartamentos menores, instabilidade econômica e a ascensão dos teclados digitais compactos redesenham o perfil dos consumidores.

Em lojas especializadas, as vendas de pianos caíram drasticamente nos últimos anos. Os modelos de cauda ou de armário (verticais) passaram a ser vistos mais como peças de decoração do que instrumentos de uso cotidiano. O que antes era herança de família ou parte do mobiliário clássico de casas amplas e sobrados tradicionais, hoje esbarra em questões logísticas e financeiras.

O diretor do Conservatório Musical Popular Erudito, na Ponta da Praia, Paulo Ricardo Nogueira, testemunha a transformação do mercado musical. “Eu percebi que o mercado diminuiu. Para ter uma ideia, conheço apenas um afinador de piano aqui em Santos. Também precisamos pensar que os apartamentos são menores, é uma tendência do mercado e uma questão social”, opina.

O empresário conta que o local atende desde crianças até pessoas da terceira idade. A maior procura é por aulas de piano e violino. “O pessoal sempre associa a palavra conservatório a algo erudito e se retrai um pouco, mas ensinamos vários estilos”, diz Nogueira. A atual instituição é uma continuação do antigo Conservatório Villa-Lobos, fundado em 1941. Nogueira que atua no setor desde junho de 2021, enfatiza que a questão do espaço para ter um piano tornou-se determinante. Quando assumiu a empresa, uma cliente entrou em contato para doar seu piano, pois estava se mudando para um lugar menor. “É um instrumento grande. Não é como um violão, que a pessoa guarda no armário”.

O proprietário da Fenix Music, Denis Aristóteles Ramos, que possui lojas em Praia Grande e São Vicente, confirma a tendência de praticidade também nas vendas. A empresa, com 40 anos de existência, migrou para o segmento de instrumentos há 15 anos. Segundo Ramos, com o tempo, a frequência do “cliente de balcão” diminuiu bastante. Por outro lado, o e-commerce tem aumentado cada vez mais.

“Nós frequentamos muitas feiras do setor e conversamos com muitos fornecedores nacionais. É notório que o mercado mudou. Então, é preciso trabalhar nestas duas esferas, vendas física e on-line também”, declara o empresário.

PANDEMIA

A pandemia alterou o perfil de consumo. “Antes da pandemia, muitas pessoas tinham dinheiro e não tinham tempo. Durante este período, o cenário mudou. Todos ‘intensificaram’ a presença on-line. Muita gente que tinha vontade de aprender aqueceu o comércio de instrumentos musicais, comprando cursos em sites”, comenta Ramos. O movimento dobrou. “Foi a época que mais trabalhamos aqui na loja”, lembra. A empresa começou a atuar na internet e intensificou o delivery de todo tipo de instrumento para as cidades da Baixada Santista.

TRADIÇÃO

Marcelo Viana da Silva representa a terceira geração da Soléu Pianos, empresa familiar fundada em 1938 por seu avô italiano. Há 34 anos à frente dos negócios, Marcelo testemunha a transformação do mercado.

“O cenário para os instrumentos musicais mudou muito. Antes da internet, as pessoas que tinham vocação estudavam teoria, usavam os instrumentos que haviam nas escolas, mas logo faziam questão de ter em casa um piano semelhante para a prática”, observa.

Marcelo comenta que o imediatismo levou a aquisição de instrumentos eletrônicos. “As pessoas querem tocar de improviso, de ouvido, com ‘dicas da internet’. Não têm mais paciência de aprender a teoria do instrumento”, opina Marcelo. A mudança cultural se reflete também no fechamento dos conservatórios. “Em Santos e região, a maioria fechou”, destaca.

Apesar das mudanças de pensamento e a praticidade do instrumento eletrônico, Marcelo defende a superioridade do acústico. “Jamais um piano digital vai chegar próximo de um piano acústico. O piano digital é pratico, mas é outro tipo de instrumento. O acústico tem o peso correto nas teclas. A sonoridade e a digitação são totalmente diferentes”.

O empresário reconhece que o interesse permanece, mas em formato diferente. “Ainda há interesse pelo piano, mas tudo ficou mais corrido, com menor dedicação. Aquela situação de estudar num conservatório, se formar, virar concertista, é raro hoje em dia. Você conta nos dedos os jovens que queiram seguir carreira de pianista”.

FUTURO

O futuro deve manter as mudanças estruturais. Instrumentos acústicos enfrentam desafios logísticos, econômicos e de espaço. O mercado vive a transição entre o peso – literalmente – da tradição e a leveza da tecnologia. O empresário Paulo Ricardo Nogueira acredita que a tecnologia digital prevalecerá. “O piano digital é mais prático, pode ser facilmente transportado”, avalia. Mas sugere a possibilidade de um movimento reverso: “Tudo é cíclico. Pode ser que as pessoas comecem a querer coisas mais tradicionais. Ao se tornar um objeto raro, o piano acústico vai despertar desejo, afinal é muito bonito, enche os olhos. Quem sabe?”, finaliza.