
O ator britânico Paapa Essiedu, que foi escalado para viver Severo Snape na nova série de Harry Potter da HBO, está passando por um verdadeiro bombardeio de ataques preconceituosos e racistas. Não há nada mais covarde do que atacar alguém apenas pela cor da pele. É como se algumas pessoas – tenham elas a idade que tiverem – tivessem parado no tempo, lá no fundo do armário embaixo da escada, agarradas a uma ideia ultrapassada de que “personagem X só pode ser interpretado por ator branco”.
Paapa Essiedu tem 34 anos, um currículo sólido e respeitado no teatro britânico, além de participações marcantes em séries de prestígio como I May Destroy You, Black Mirror e Gangs of London. Ele é um dos atores jovens mais promissores da atualidade e vem sendo elogiado pela profundidade emocional que consegue dar aos seus papéis. Snape, como a gente sabe, é um personagem complexo, cheio de camadas, com uma história de dor, rancor e redenção — ou seja, um prato cheio para quem sabe atuar de verdade.
Mas para alguns fãs desocupados, o talento não importa. O que importa é que o Snape “deles” tem que parecer exatamente como foi retratado nos filmes antigos ou como estava no imaginário coletivo — branco, cabelo preto, cara de poucos amigos. Ao invés de aproveitar a chance de ver uma nova interpretação, resolveram despejar racismo em redes sociais, fóruns e comentários. E não foi pouca coisa: mensagens ofensivas, ataques diretos ao ator e ameaças veladas tomaram conta de espaços virtuais.
E não dá pra tratar isso como “birra de fã” ou “gente que não gosta de mudança”. Não. Isso é racismo escancarado, puro e simples. O mesmo racismo que Kelly Marie Tran sofreu quando entrou em Star Wars: Os Últimos Jedi interpretando a tenente Rose Tico. Tran, uma atriz vietnamita-americana, foi atacada de todas as formas possíveis — chamada de “inútil”, “intrusa” e outros adjetivos que nem vale repetir aqui. O ataque foi tão violento que ela teve que abandonar as redes sociais e buscar terapia para lidar com o trauma.
Tran escreveu um texto emocionante contando como esses ataques a fizeram questionar seu valor e sua identidade. Ela disse que, desde pequena, era ensinada a se calar, a não fazer barulho para não incomodar. E foi exatamente isso que os haters tentaram fazer: silenciar uma mulher asiática em uma das maiores franquias do mundo. Mas Tran resistiu, voltou a atuar e se tornou símbolo de luta contra a intolerância.
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Outro caso recente aconteceu com Moses Ingram, que interpretou Reva em Obi-Wan Kenobi, também de Star Wars. Assim que a série foi ao ar, Moses recebeu centenas de mensagens de ódio, a maioria carregada de racismo. A própria Disney precisou se manifestar publicamente, pedindo que os fãs respeitassem a atriz. Não deveria ser necessário um estúdio vir a público dizer “não sejam racistas”, mas infelizmente é.
Que casos assim sejam tratados como o que são: crimes. E os culpados sejam responsabilizados e aprendam, talvez desde cedo, que a expressão pode ser livre mas todos estão sujeitos às consequências do que dizem e fazem.
A cultura pop está cheia de exemplos de preconceito enraizado. Quando uma mulher negra foi escalada para viver a Pequena Sereia em live-action, o mundo quase veio abaixo. Fãs revoltados falaram em “desrespeito ao original”, como se fosse impossível uma sereia existir com outra cor de pele. Isso tudo mostra que, mesmo com discursos bonitinhos de inclusão, parte do público ainda age como se quisesse manter um clube onde só entra quem tem a aparência que eles consideram “certa”.
No caso de Paapa Essiedu, o ataque fica ainda mais absurdo quando lembramos que Snape nunca foi descrito como branco nos livros de J.K. Rowling de forma taxativa. A aparência dele foi marcada pelos filmes, principalmente pela atuação de Alan Rickman, que deu vida ao professor com maestria. Mas a arte não é para ser engessada, e Snape pode (e deve) ser revisitado por novos atores e olhares. Uma nova interpretação pode trazer frescor, nuances diferentes, novos caminhos. É assim que a cultura se renova.
Ao ver a reação de parte dos fãs, fica claro que não é só uma questão de “defender fidelidade”. É uma tentativa de controlar quem pode ou não existir dentro desses universos. Um tipo de gatekeeping tóxico, que transforma o amor por uma história em desculpa para espalhar ódio.
Esses ataques são tão absurdos quanto perigosos. Estamos falando de crimes de ódio. Não é “opinião”, não é “liberdade de expressão”. A Constituição brasileira, inclusive, prevê punição para manifestações de racismo, e a lei internacional também vem avançando nesse sentido. É bom lembrar: todo mundo pode (e deve) ter opinião sobre um ator, uma atuação, um roteiro. Mas quando a crítica vira ataque à etnia ou à origem da pessoa, cruzamos a linha da decência e entramos em território criminoso.
Enquanto vemos esses episódios se repetirem, fica a pergunta: que legado queremos construir como fãs? Um ambiente tóxico, excludente, onde só a visão de uma minoria sem caráter prevalece? Ou um espaço de celebração, diversidade e respeito, onde qualquer pessoa pode se ver representada? Está na hora de os fãs se posicionarem, denunciarem e protegerem quem está sendo atacado.
Paapa Essiedu, por sua vez, vem mostrando uma postura admirável. Apesar das ameaças, ele segue firme, trabalhando e falando com confiança. Mostra que não vai abaixar a cabeça para racistas disfarçados de fãs.


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