
Com o auditório da Associação Comercial de Santos (ACS) como palco e transmissão ao vivo pelo canal Orla Play no YouTube, foi aberta a primeira edição do BS Debate, um ciclo de discussões que pretende abordar temas estratégicos para o desenvolvimento da Baixada Santista. A estreia do projeto, idealizado pelo Jornal da Orla e pela Record Litoral e Vale, em parceria com a ACS, foi dedicada à saúde pública.
O evento reuniu autoridades, especialistas e profissionais do setor para discutir os desafios enfrentados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a importância da prevenção, o papel da inovação e a necessidade de articulação entre os poderes públicos.
Na abertura, o presidente da Associação Comercial de Santos, Mauro Sammarco, destacou o compromisso da entidade com o desenvolvimento regional. “A ACS faz parte das discussões de desenvolvimento não só de Santos, mas de toda a Baixada Santista. A casa está aberta para isso, para que estejamos juntos, se engajando e tentando melhorar temas importantes como a saúde, que é o pontapé inicial aqui”, afirmou.
O médico Luiz Colombo Barbosa, coordenador da Câmara Setorial de Saúde da ACS, falou sobre a importância de repensar o modelo de saúde, especialmente com foco na prevenção. “Saúde é um bem maior. Não existe absolutamente nada se nós não tivermos saúde. E saúde não é só física — é mental e espiritual também”, disse.
Com mais de seis décadas dedicadas à área, Colombo compartilhou sua experiência e criticou a precariedade enfrentada por parte da população: “É lamentável que, na cidade com o maior porto da América Latina, ainda existam pessoas vivendo em palafitas, sem saneamento básico e sem nenhuma condição de saúde. Estamos vendo o retorno da tuberculose e da sífilis, isso é muito grave”.
Ele também ressaltou a importância de separar saúde de disputas político-partidárias. “Saúde não é política. Enquanto forem confundidas, teremos dificuldades enormes de resolução. Precisamos de políticas públicas estruturadas, mas a saúde deve estar acima de qualquer ideologia”.
O jornalista Leopoldo Figueiredo, diretor-geral da Rede BE News, reforçou o objetivo do evento. “Debater saúde é debater qualidade de vida, debater desenvolvimento. Estamos aqui não só para apontar erros, mas para identificar caminhos para soluções. Esse é o nosso grande objetivo”, pontuou.
João Batista Rodrigues, diretor-executivo da Record Litoral e Vale, avaliou positivamente a primeira edição. “Temas importantes foram abordados, e o SUS precisa, sim, melhorar muito. A ideia é que esse debate não fique apenas na região. Queremos buscar apoio dos governos estadual e federal, para que enxerguem as necessidades colocadas aqui”, afirmou.
Ele também destacou o papel da imprensa como fiscalizadora. “A Record tem recebido da audiência uma cobrança para estar mais presente, cobrando as autoridades. Participar desse tipo de debate é uma forma de exercer esse papel”.
O BS Debate terá continuidade nos próximos meses, com uma programação de sete encontros voltados para temas como segurança pública, mobilidade urbana e desenvolvimento econômico. “Precisamos trazer novas empresas, aumentar a renda média, discutir questões sociais. E isso envolve também infraestrutura, como as obras da terceira pista da Imigrantes, os novos terminais, o túnel… Como a região vai se beneficiar disso?”, questionou Sammarco. O ciclo começou com saúde pública por um motivo: sem ela, não há desenvolvimento possível.

Entraves estruturais do SUS mostram necessidade de pacto federativo
Com déficit de leitos, subfinanciamento crônico e fragmentação na regulação, o Sistema Único de Saúde (SUS) na Baixada Santista enfrenta um colapso silencioso. Essa foi o tema do painel “Desafios e Soluções para o SUS na Baixada Santista”, realizado com mediação do jornalista Alexandre Furtado e participação de autoridades da saúde pública regional.
Estiveram no debate Adriano Catapreta, ex-secretário de Saúde de Santos; Paula Covas, secretária-adjunta de Saúde de Santos; Márcio Oliveira, secretário de Saúde de Cubatão; e Antônio Leal, presidente da Associação Paulista de Medicina (APM) de Santos.
Logo na abertura, Furtado apresentou números que ajudam a dimensionar o gargalo: em 2016, a região contava com apenas 1,57 leito hospitalar por mil habitantes — abaixo de cidades como Campinas (1,79) e São Paulo (2,31). Hoje, com mais de 1,8 milhão de habitantes, a Baixada segue sobrecarregada, sem ampliação proporcional da infraestrutura.
LEITOS ESCASSOS
Adriano Catapreta foi direto. “A realidade é que faltam leitos. O número efetivo é pequeno e o valor pago pelo SUS é menor que o custo real do leito”. Segundo ele, a tentativa de contratualizar vagas com a rede privada é travada por entraves jurídicos e pela defasagem da tabela do SUS, que não cobre os custos reais dos procedimentos.
Paula Covas reforçou o alerta. “Temos um déficit de 1 mil leitos de enfermaria na região. Tentamos abrir leitos de UTI pediátrica e não conseguimos, ora por falta de estrutura, ora por falta de profissionais. O município continua arcando com a maior parte dos custos. Precisamos rever esse pacto federativo, urgentemente”.
Márcio Oliveira acrescentou que até 80% das internações hospitalares poderiam ser evitadas com um atendimento mais resolutivo na atenção primária. “A região precisa integrar melhor o cidadão ao seu território. Pecamos nisso”.
REGULAÇÃO FALHA
Um caso emblemático citado no debate envolveu uma paciente que esperou dois anos por uma cirurgia de quadril e sequer teve seu nome registrado no sistema estadual de regulação (CROSS). “Com o avanço da tecnologia, esse tipo de erro é inaceitável. Mas o sistema ainda é fragmentado e não conversa entre si”, criticou o jornalista Alexandre Furtado.
Márcio Oliveira denunciou a sobrecarga financeira. “Usamos até 24% do orçamento municipal em saúde. O paciente é do SUS, mas quem paga é o município. E na judicialização, o governo federal não entra na conta”.
Além disso, os gestores denunciaram a alta rotatividade de profissionais e a instabilidade política. “A cada troca de gestão, começamos do zero. É difícil fazer saúde pública com rupturas constantes”, lamentou Paula Covas.
ORIENTAÇÃO
Os especialistas defenderam a valorização da atenção primária e ações educativas. “Dois dos três principais motivos de internação são evitáveis com boa atenção básica”, lembrou Márcio Oliveira. Ele apresentou iniciativas de acolhimento e campanhas em Cubatão para orientar a população.
Um problema recorrente apontado foi o uso indevido das UPAs. Em Cubatão, 70% dos atendimentos são de baixa complexidade. “As pessoas acham que a UPA é mais rápida, mesmo para casos simples. Isso congestiona o sistema. Precisamos ensinar o paciente a procurar o lugar certo, na hora certa”, disse Márcio.
TECNOLOGIA
Apesar das dificuldades, o painel também trouxe exemplos de avanços. Paula destacou o ‘Integra’, projeto em implantação em Santos que unifica prontuários e permite rastrear o atendimento do paciente em toda a rede. “Tecnologia é essencial, mas não substitui o olhar humano. Precisamos de gente bem treinada operando os sistemas”, alertou.
Catapreta completou. “Chegamos a ter 40% de faltas em consultas. Se o paciente pudesse desmarcar pelo celular, outro poderia ser atendido. A tecnologia pode nos ajudar nisso”.
VALORIZAÇÃO
Antônio Leal trouxe a perspectiva dos médicos. “Três em cada quatro profissionais do SUS têm carga horária excessiva e recebem abaixo da média. Como reter bons profissionais assim?”
O medo da judicialização também pesa. “Qualquer erro nos leva ao banco dos réus. Isso afasta médicos do SUS. Precisamos de valorização e proteção jurídica”, disse Leal.
O gargalo na alta complexidade agrava a situação. “Muitas vezes temos o diagnóstico confirmado, mas não conseguimos sequer biopsiar o paciente por falta de vaga ou especialistas”, relatou Catapreta.
NOVO PACTO
A conclusão foi unânime: o SUS da Baixada Santista precisa de mais recursos, gestão articulada e um novo pacto federativo que considere as realidades regionais.
“O município está pagando a conta sozinho”, resumiu Márcio Oliveira. “Já ouvimos promessas demais. É hora de levar essa discussão ao governo federal com seriedade”.
Paula lembrou que a população da região quase dobra na alta temporada, sem compensação proporcional de recursos. “Há anos ouvimos que a tabela do SUS será revista. Seguimos esperando. Essa conversa precisa sair do discurso e virar política de Estado”.
Com um sistema operando no limite, a mensagem final do painel foi clara: “O SUS é grandioso, mas precisa ser sustentado por todos os níveis de governo”, concluiu Paula Covas.

Tecnologia pode ser parceira da saúde
Com foco na transformação digital do Sistema Único de Saúde (SUS), o painel “Tecnologia e Inovação na Gestão das Políticas Públicas de Saúde” reuniu especialistas que estão à frente de importantes mudanças em diferentes esferas do país. Participaram da discussão o médico Gustavo Godoy, gerente geral de Transformação Digital da Secretaria de Saúde do Recife (PE); Gilliate Cardoso Coelho Neto, diretor de Tecnologia da Informação da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH); e Richard Papadimitriou, estrategista comercial da empresa santistade tecnologia Mosten.
RECIFE
Gustavo Godoy apresentou a “Jornada de Transformação Digital na Saúde do Recife”, iniciativa que vem modernizando os serviços públicos com integração de sistemas, automação e uso estratégico de dados. “Transformação digital deixou de ser algo desejável e se tornou essencial”, destacou.
Por meio do aplicativo Conecta Recife, os cidadãos podem agendar consultas, acessar exames e históricos médicos. “É inclusão digital aplicada ao cuidado”, resumiu. O sistema reúne mais de 600 serviços públicos.
Godoy destacou ainda o uso de inteligência artificial no sistema TecaAI, que classifica riscos e otimiza encaminhamentos médicos, reduzindo filas. “Só com essa estratégia já reaproveitamos 250 mil vagas, gerando uma economia estimada em R$ 13 milhões”. Outro avanço foi a integração com o SISREG, o sistema nacional de regulação, permitindo que os pacientes já saiam da consulta com encaminhamentos agendados.
PRONTUÁRIO
Gilliate Neto apresentou o Aplicativo de Gestão para Hospitais Universitários (AGHU), utilizado em 45 hospitais universitários federais e agora em expansão para outras unidades do SUS. Com mais de 27 milhões de registros clínicos, o AGHU permite a integração em tempo real de informações clínicas, cirúrgicas, laboratoriais e farmacêuticas. “O AGHU é o prontuário eletrônico público mais robusto do país e está certificado pela Sociedade Brasileira de Informática em Saúde”.
SETOR PRIVADO
Richard Papadimitriou destacou a importância de entender o dia a dia das unidades de saúde para desenvolver inovações. “A inovação na saúde pública não é sobre tecnologia, é sobre contexto”, afirmou.Para o especialista, o principal entrave ainda é cultural. “A inovação é vista como projeto extraordinário, quando deveria ser rotina. Sem essa mudança, continuaremos com iniciativas pontuais que não se sustentam”.


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