Política

“Pessoas estão preocupadas ou querem se livrar do povo de rua?”, questiona advogada

21/06/2025 Marco Santana
“Pessoas estão preocupadas ou querem se livrar do povo de rua?”, questiona advogada | Jornal da Orla

A presença do Padre Júlio Lancellotti, em um seminário realizado em Santos na segunda-feira (16), acabou ofuscando, mesmo que involuntariamente, a participação da advogada Eliane Dias. Além de produtora musical de grupos como o Racionais MC, do marido, Mano Brown, ela é extremamente atuante no debate sobre temas como ra­cismo, violência contra as mulheres e combate às desigualdades.

Convidada para um evento sobre a população em situação de rua, organizado pelo Instituto Telma de Souza, Eliane relatou suas experiências e as estratégias possíveis no enfrentamento da questão. Aliás, ela mesma morou durante um ano na rua: Eliana tinha oito meses de vida quando sua mãe, então com 16 anos, foi despejada da pensão onde morava.

Passou uma infância e adolescência com dificuldades, foi doméstica e costureira. Aos oito anos, encontrou no lixo um livro que mudou sua vida. “Quarto de despejo: diário de uma favelada”, da escritora Carolina Maria de Jesus, relata uma realidade dura e comum na vida de milhões de brasileiras – apesar de escrita em 1950, a obra continua atual.
Com muita resiliência, Eliane se formou advogada, cursando Direito após o nascimento dos dois filhos.

Ela sentiu dentro de casa a força do machismo, pois Mano Brown foi resistente à ideia de ela ser a produtora do Racionais MC. Ela o convenceu e a carreira do grupo de rap deu um salto exponencial.

Ela também é produtora do podcast Mano a Mano, no qual o marido tem conversas interessadas com pessoas interessantes, sobre os mais variados assuntos.

Paralelamente ao trabalho com o marido, ela é presença marcante em debates que buscam mudanças na legislação e a definição de políticas públicas.

Em relação às pessoas que sobrevivem nas ruas, ela foi direta ao ponto: é preciso saber o que as leva a esta situação e, consequentemente, adotar ações para evitá-las. “Precisamos de políticas públicas eficazes. Educação, treinamento e parcerias comunitárias para enfrentar a pobreza, a desigualdade econômica, o desemprego, a falta de moradia, as questões de saúde mental e outros fatores que levam pessoas a ficar em situação de rua”, considerou.

Mais do que isso. Ela destacou a responsabilidade individual de cada um. “As pessoas estão, de fato, preocupadas com a população em situação de rua ou em como se livrar dessa população? Cada um responda para si mesmo”.

“Defendam os indesejáveis, diz Padre Júlio

Cerca de 500 pessoas participaram do evento organizado pelo Instituto Telma de Souza, entidade que tem a ex-prefeita como presidente de honra e cujo objetivo é fomentar discussões que ajudem a definir políticas públicas.

A grande estrela da noite, o padre Júlio Lancellotti, vigário episcopal da Pastoral do Povo de Rua da Arquidiocese de São Paulo compartilhou suas vivências e buscou despertar o senso crítico sobre como a sociedade encara o “povo da rua” e outras populações marginalizadas. “Sugerem que a presença de travestis, trabalhadoras do sexo e pessoas trans em vias públicas seja ato obsceno. Já dizia Saramago: obscena é a fome!”, disse.

“Quem defende o povo da rua não fica encapsulado, isolado. Vivemos uma ordem injusta e a desigualdade mata. Quem defende o povo da rua deve defender os direitos do povo palestino, dos indígenas, combater o racismo e a LGBTfobia, lutar por todas as minorias. Cada luta tem sua especificidade, mas todas têm sua fraternidade. Sejam corajosos, questionem. Sejam amigos dos pobres. Defendam os indesejáveis. Não tenham medo de transgredir!”, afirmou.

A Carta Aberta
No seminário, foram coletadas colaborações, que são analisadas pelo Instituto Telma de Souza, que sintetizará as propostas em um documento para ser enviado aos aos prefeitos e câmaras municipais da Baixada Santista.