Justiça

Casos de feminicídio aumentam 700% na Baixada Santista

25/05/2025 Da Redação
Fernando Yokota

A reconstituição de um crime que chocou a cidade de Santos foi mais um capítulo de uma série de casos que não têm nada de isolados. Na última quinta-feira (22) foi realizada a reprodução do assassinato de Amanda Fernandes Carvalho, de 42 anos, morta com três tiros e 51 facadas pelo marido, o sargento da Polícia Militar Samir do Nascimento Rodrigues de Carvalho, de 46 anos. O crime aconteceu no último dia 7, em uma clínica médica localizada no bairro da Vila Belmiro. Durante o ataque, a filha do casal, de 10 anos, também foi ferida ao tentar proteger a mãe.

Este fato chocou, mas a verdade é que crimes dessa modalidade têm se tornado comuns. Em 2024 o Estado de São Paulo registrou 253 casos de feminicídio, o maior número desde 2018, representando um aumento de 14,5% em relação a 2023. Na região de Santos, abrangida pelo Departamento de Polícia Judiciária do Interior 6 (Deinter 6), houve uma redução nos feminicídios consumados, passando de seis casos no primeiro semestre de 2023 para quatro no mesmo período de 2024. Por outro lado, as tentativas de feminicídio na região aumentaram significativamente: de dois casos no primeiro semestre de 2023 para 14 no mesmo período de 2024, um crescimento de 700%.

Na maioria dos casos, as mulheres permanecem em relações abusivas por causa de vários fatores. Para a psicóloga Djeane Moura, a demora em denunciar é uma questão complexa, que envolve os lados psicológico, social e econômico: “A mulher pode ter medo de vingança do agressor, de que ele cumpra as ameaças feitas. Existem também a dependência emocional e a financeira, nas quais muitas mulheres são dependentes do agressor, o que as impede de se verem fora do relacionamento. A vítima muitas vezes se sente culpada pela situação, ou envergonhada de admitir que está passando por isso. E o isolamento imposto pelo agressor e a ausência de uma rede de apoio familiar ou de amigos dificultam a busca por ajuda”.

Alguns tipos de comportamentos são comuns nos agressores e é possível identificar nos detalhes se o marido, companheiro ou namorado tem um perfil agressivo. Para a psicóloga Alessandra Moreno de Oliveira, pequenas atitudes já dão um indicativo, mas o machismo existente na sociedade faz com que esses sinais sejam menosprezados: “Todos os agressores dão sinais. Ocorre que vivemos numa sociedade culturalmente muito machista e algumas mulheres acabam normalizando pequenas agressões, sejam elas verbais, psicológicas, entre outras. Com isso, é muito importante estar atenta a esses sinais. Ainda que se perceba que não vão evoluir para uma agressão grave, pequenas situações de desconforto precisam ser sinalizadas com limites”.

Na primeira fase, a tensão cresce com xingamentos, ameaças e destruição de objetos; na segunda, ocorrem agressões físicas e verbais mais intensas; e na terceira, o agressor demonstra arrependimento, adota um comportamento carinhoso e promete mudar — dando início a um novo ciclo.

A violência contra a mulher pode ser física (empurrões, tapas, chutes, estrangulamento), sexual (relações forçadas, inclusive pelo parceiro), psicológica (humilhações, ameaças, xingamentos, isolamento), patrimonial (quebra de objetos, controle ou retenção de dinheiro), moral (calúnia, difamação, injúrias), institucional (negligência ou omissão de atendimento por órgãos públicos) e por discriminação, como no caso de preconceito por orientação sexual.