
O que acontece quando um escritor da Baixada Santista resolve lançar um livro de contos ambientado nas ruas que ele conhece desde a infância, recheado de personagens masculinos comuns e contraditórios, ambientações familiares e uma pitada de brutalidade cotidiana? A resposta pode estar em ‘Me Vê Dez Médias’, o quinto livro do escritor Leandro Marçal, que será lançado amanhã (17), de forma independente, no quintal de sua casa, em São Vicente.
Mesmo sem ter sido lançado oficialmente, o livro já precisou lidar com a alta demanda: dos 400 exemplares impressos, 90 voaram em menos de uma semana. “Eu não fiz nada de diferente na divulgação. Foi igual aos outros livros. E mesmo assim, já está indo de um jeito que eu não consigo explicar”, diz Leandro, surpreso com a proporção que o projeto tomou.
ENTRE CONTOS E IRONIAS
A obra é uma coletânea de contos curtos, todos ambientados na Baixada Santista e, com uma linguagem crua e realista, exploram temas como violência urbana, masculinidade tóxica, cotidiano periférico e desigualdade social, sempre ancorados em personagens que, apesar de fictícios, poderiam facilmente estar ao nosso lado no ônibus ou na fila do supermercado. “Eles não têm nome porque podem ser qualquer um. Qualquer homem comum”, explica.
O título do livro vem de uma expressão tipicamente caiçara — afinal, quem nunca foi à padaria no final do dia pedir médias quentinhas para o lanche? — e traz à tona a relação do autor com a sua terra natal. “Eu queria algo que fosse realmente nosso. A expressão ‘me vê dez médias’ tem essa força. Evoca minha infância, minha mãe me mandando na padaria, a rotina das famílias daqui”, conta.
Leandro revela que, mesmo escrevendo em primeira pessoa e tocando em temas sensíveis, os contos não são sobre ele — mas carregam muito do que ele observou e viveu. “Tem um conto que parte de uma história real de um tio do meu pai que matou alguém numa padaria. Outro veio de um assalto na família. Mas é sempre ficção. O personagem pensa, age, erra. E a gente caminha dentro da cabeça dele”.
REALISMO COTIDIANO
Leandro começou como cronista e manteve esse olhar atento ao cotidiano na ficção. Nos contos de ‘Me Vê Dez Médias’, a Baixada não é só cenário: é personagem. “O Gonzaga, por exemplo, é o lugar onde desigualdade e beleza se encontram. A praia é linda, mas as mazelas estão logo ali, uma esquina depois. Eu quis mostrar essa ambiguidade”.
A checagem dos nomes das ruas, o cuidado com os detalhes de bairro em bairro — tudo foi pensado para que o leitor reconheça os lugares e, ao mesmo tempo, entenda a dureza de quem vive fora da vitrine turística da cidade. “É literatura de rua, de esquina, de gente comum”.
CONTOS QUE CHOCAM, PROVOCAM E FAZEM PENSAR
Inspirado por autores como Rubem Fonseca, Leandro não suaviza. Ao contrário: provoca desconforto. “Eu quero que o leitor se sinta trancado dentro da cabeça de alguém e tenha que procurar uma saída. Não dou lição de moral, mas quero que pensem: será que precisa ser assim?”
Com personagens que espancam, matam ou reproduzem violências cotidianas sem perceber, o livro oferece choques sutis e brutais. “Eu escrevo personagens que acham que estão fazendo o certo. Que não se veem como vilões. São comuns. Podem estar em qualquer esquina”.

LANÇAMENTO INDEPENDENTE
O livro foi viabilizado com recursos da Lei Aldir Blanc. “Se não fosse a política pública, esse livro não existiria”, afirma. Com o valor do prêmio, ele remunerou revisora, preparadora, designer e diagramador. “Aprendi a fazer tudo sozinho. Desde então, publico de forma independente”.
O lançamento oficial acontece amanhã (17), das 14h às 18h, na Rua Frei Gaspar, 1731, em São Vicente — literalmente no quintal da casa do autor. Com samba tocando, um churrasquinho e músicas que combinam com os enredos dos contos, Leandro quer fazer do evento um reflexo do livro: acessível, popular e acolhedor. “E quem chegar no dia vai ter uma surpresa”, diz ele.
Além do lançamento, o livro pode ser adquirido pelo site por 30 reais. Leandro também conversa com leitores pelo Instagram @leandromp91 ou pelo e-mail [email protected].


Parabéns, Leandro!