
O ex-presidente do Uruguai José “Pepe” Mujica deixa um legado positivo não apenas para os políticos de esquerda mas para todos os que defendem a democracia e as liberdades. A avaliação é de especialistas consultados pelo Jornal da Orla, que apontam no líder uruguaio, que será enterrado hoje (15), características que estimulam a reflexão de todos, independentemente da preferência ideológica. Confira:
Pepe deixa vácuo
“Mujica foi um líder popular sem ser populista. Em um continente notabilizado por ser governado por caudilhos, Pepe se apresentou como um líder democrático, preocupado em vencer pelo voto. Foi também um líder comprometido em estender pontes e dialogar e ouvir os adversários. E teve uma vida atravessada por lutas sociais, que nunca abandonou.
Pepe deixa mais um vácuo do que um legado. Com a morte de Mujica sobram como líderes populares de esquerda no continente apenas Cristina Kirchner e Lula. Só que ambos são muito rejeitados por setores expressivos do centro, centro-direita e direita. Mujica tinha o respeito inclusive destes setores, em grande parte porque usava de uma comunicação mais agregadora e não foi vinculado a escândalos de corrupção. No campo pessoal, era famoso por ser um homem modesto e que não nutria grandes vaidades. Foi um dos últimos líderes dessa esquerda romântica e que enfrentava a direita de forma a jamais abrir mão de um pacto civilizatório.
O vácuo deixado será enorme também porque a esquerda não tem nomes para substituí-lo e também vai ver sua crise existencial se agudizar: o que fazer para enfrentar a extrema direita?
Adaptar seu discurso para uma mensagem mais agressiva e virulenta como a extrema direita? Ou manter a linha de Mujica? Mujica conseguiu ser popular sem ser populista, mas será que isso ainda será possível na política guiada pelas redes sociais?”
Alexandre Gossn, pesquisador e escritor, mestre em Direito e doutorando pela Universidade de Coimbra
Ideias de vanguarda
Mujica nos deixou, mas seu legado seguirá vivo em nosso continente. Pepe nos mostrou que, independentemente do perfil ideológico de cada um, é possível manter erguidas suas bandeiras políticas sem abrir mão de seus princípios, dialogando com aqueles que pensam de maneira distinta e mirando sempre nos interesses das futuras gerações.
Sua postura em relação a uma série de pautas que historicamente eram um tabu em nosso continente colocou o Uruguai na vanguarda da América Latina. Enquanto presidente teve a coragem de pautar a descriminalização do uso da maconha, o casamento civil homoafetivo, e uma nova Lei de Abortos, tudo isso enquanto fazia massivos investimentos públicos, que reduziram significativamente os níveis de pobreza.
O mundo perde uma de suas maiores lideranças, mas sorte a nossa, que pudemos tê-lo como uma referência política durante tanto tempo.
Rafael Moreira, doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo
Símbolo da democracia
José Mujica provavelmente é o maior símbolo da América do Sul na luta contra os regimes militares e autoritários da década de 1970, que dominaram praticamente o continente durante longo período.
Portanto, Mujica deixa como legado a sua luta pela democracia, igualdade social e direitos humanos, que devem servir referências para todo o mundo político notadamente num momento em que as pautas autoritárias e antidemocráticas ressurgem no cenário internacional, podendo comprometer novamente a paz mundial e a normalidade econômica e comercial, até mesmo de países de longa tradição liberal.
Fernando Chagas, cientista político


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