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02/08/2009

Era religioso. Domingo, sete da noite, tinha “Os Trapalhões” na Globo. Durante boa parte da minha infância e adolescência, não havia o que me tirasse de frente da tevê nesse dia e horário. Didi, Dedé, Mussum e Zacarias formaram um “quarteto mágico” que atravessou gerações. E nessa semana fez 15 anos da morte do impagável Mussum (o mais carismático dos quatro), falecido dia 29 de julho de 1994.
Os Trapalhões sempre foi considerado um grupo de humor um tanto infantil, com esquetes de final previsível, tanto que as crianças formavam a maior parte de seu público cativo. E, ao rever na internet alguns momentos do programa, cheguei a uma inesperada conclusão: talvez os Trapalhões não tivessem espaço na tevê hoje em dia, ou teriam que mudar o tom de suas brincadeiras. Por quê?
Vivemos a chatíssima era do “politicamente correto”. É preciso tomar muito cuidado com o que vai ser falado, com a piada que será contada, pois o autor da galhofa pode ser processado criminalmente, virar alvo de ONGs patrulheiras e afins. Nos Trapalhões, Didi era o retirante cearense. Mussum, o negro sambista chegado a uma cachaça. Zacarias, o mineiro ingênuo que usava peruca. E Dedé, o carioca metido a galã cuja masculinidade era, às vezes, colocada em xeque. Ou seja: espaço aberto para a zombaria – aliás, eles costumavam satirizar seus próprios estereótipos.
Entre os vídeos a que assisti, vi frases do tipo “Eu tô esperando a sua veia que vem do Ceará pra eu tatuar um jegue nela”, dita por Mussum ao Didi em um esquete no qual eles encarnam tatuadores. Em outro, Mussum acusa os colegas de racismo por sempre ficar em último na fila na hora do banho. No final, Didi determina:
“Aqui não há preconceito, e a partir de agora somos todos azuis”.
“E como vamos organizar a fila?”, indaga o Mussum.
“Quem é azul claro fica na frente, e quem é azul escuro fica atrás”, responde o Didi.
Imagine um negócio desses hoje em dia na telinha. Certamente a Rede Globo e os quatro humoristas teriam problemas com a Justiça, assim como acaba de ocorrer com Danilo Gentili, do “CQC”.
Ele postou no serviço de microblog Twitter a seguinte piada:
“King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?” Bastou para Danilo virar alvo do Ministério Público de SP, investigado por crime de racismo. O que eu discuto não é a brincadeira em si que, como qualquer outra, pode tanto ser engraçada como infeliz ou de mau gosto. Quem não gosta, ou se ofende, tem todo o direito de se manifestar. Mas daí a tratar o caso como crime e sair apedrejando o humorista, são outros quinhentos.
Será que Didi, Dedé, Mussum e Zacarias criaram gerações de pessoas racistas e preconceituosas com “Os Trapalhões”? Se o tivessem feito, o cearense, o negro cachaceiro, o mineirinho come-quieto e o carioca que “escamoteava” não teriam sido por décadas ícones do humor e ídolos de milhões de crianças e adolescentes.
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